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sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A crítica da crítica, por que não?

Sou cria do exercício crítico. Me alimento dele e acho que todo artista deve atentar ao que dialoga e realimenta. Hoje, recebemos uma crítica de Gustavo Fioratti (Folha de S. Paulo), que antes de tudo, é quase um editorial contra o teatro musical brasileiro ao qual ele chama de “esse lugar estranho que se chama falta de assunto”. É como se o "objeto em si a ser criticado, no caso do espetáculo" seja um mote para que o cenário seja atacado. Como uma das funções da crítica é de realimentar o debate, seguem as minhas inquietações:


São Paulo, 12 de dezembro de 2014

A crítica da crítica, por que não?


Caro, Gustavo Fioratti

Li com atenção a sua crítica Peça com canções de Odair José provoca tédio ao apostar em fórmula esgotada. Por acreditar que uma das funções do pensamento crítico é de retroalimentar a discussão e o debate, resolvi dialogar com as premissas que a sua resenha propõe aos artistas que integram o processo de construção do musical Eu vou tirar você deste lugar – As canções de Odair José.
É muito interessante quando você usa o termo “paradoxo” para qualificar o resultado da materialidade que você presenciou na sessão da última segunda-feira, 8 de dezembro de 2014. Noite, aliás, em que a plateia vibrou cena a cena e comportou-se como se estivesse diante de uma potente encenação, na qual “o tédio” não poderia ser nunca um adjetivo capaz de qualificá-la. É claro que você, na condição de mediador, pode se impor e ser contra ao sentimento de deleite de uma maioria, levando em conta que, provavelmente, como você presume no texto, seja formada de “espectadores que não viram outras peças do gênero”.
O termo “paradoxo” nutre toda a matriz de sua análise, que, agora, serve como um objeto passível de crítica. A crítica da crítica, por que não? É interessante perceber que, nos quatro primeiros parágrafos do texto, há um posicionamento político de aversão explícita ao movimento do teatro musical brasileiro como gênero, que você considera puramente comercial. Isso evidencia um forte a priori contra o espetáculo, um (pre)conceito que se estabelece antes que se abram as cortinas, sobretudo. Quando o seu texto evoca o gênero musical como “modismo em dose cavalar imposto ao teatro pela indústria cultural”, ele clama por um freio à cena, ou melhor, a “esse lugar estranho que se chama falta de assunto”.
Por esse raciocínio, fica evidente que, de acordo com sua crítica, toda a forma de teatro musicado não é teatro, seria um corpo estranho imposto, como se o cenário teatral não pudesse se alimentar, em sua diversidade, do comercial e do underground de forma salutar. Esse discurso de ataque não é novidade ao teatro musical brasileiro em sua história. O teatro de revista no Brasil, por exemplo, sofreu ao longo de sua existência uma luta ferrenha de ditos intelectuais que se consideravam superiores à sua estética e ao discurso popular, numa velha chave da dicotomia “arte superior” x “arte popular”; “drama” x “comédia”, “Brecht” x “Stanislavski”.
Não quero aqui contestar a sua opinião sobre a escolha formal com a qual dialogamos com Odair José: o jogo farsesco das revistas. Isso para mim seria violar o que considero mais sagrado num contexto subjetivo: a sua opinião. O que me instiga são as sucessivas contradições trazidas em sua crítica. Após o texto sustentar todo o argumento que essa opção farsesca enfraquece o espetáculo e se encontra esgotada, você reitera, em seguida, que “de qualquer forma, as canções de Odair José combinam demais com o tom farsesco.” O que põe em xeque parte do seu pensamento e reforça as nossas escolhas processuais, que se deram de forma compartilhada, para não usar o quase hegemônico e desgastado termo “teatro colaborativo”.
Seguindo o raciocínio do seu texto, em que você diz aqui ou acolá que a montagem é “tecnicamente bem feita e vistosa”, “a banda no centro da cena, assim como os arranjos, também merecem elogios”, “os solos são melhores do que os coros”, fica a sensação de que as suas idiossincrasias sobre o teatro musical foram maiores do que o objeto em análise. Sobretudo, ao final, quando arremata, “talvez não seja justo culpar Eu Vou Tirar Você Desse Lugar por um problema que pertence a um cenário inteiro.”
Talvez, o caso não é esse de parecer justo ou injusto. Fica a evidência que sua crítica reproduz o velho jugo de colocar tudo que dialoga com o popular num extrato inferior do que se aponta como arte. De transformar uma plateia vibrante em tediosos incautos. E aí a montagem sobre As canções de Odair José vira quase um factoide em suas mãos para justificar uma linha editorial firme e pouco generosa que sai dos seus olhos.
É sintomática que a obra musical de Odair José (hoje considerada cult, inclusive por sua crítica como “linda” e “merecedora de atenção”) foi, num passado remoto, destronada pela “crítica oficial” e taxada como “brega”, sempre e eternamente num mau sentido. Sob esse aspecto, meu caro, a sua crítica nos contempla perfeitamente.
Abraços

Sérgio Maggio

Diretor, dramaturgo e mestre em crítica teatral pela UnB

Abaixo a crítica:





CRÍTICA - MUSICAL

Peça com canções de Odair José provoca tédio ao apostar em fórmula esgotada

GUSTAVO FIORATTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Na onda de musicais que resgataram os repertórios de Tim Maia, Chico Buarque, Cássia Eller, Elis Regina, Milton Nascimento, Cazuza, Lupicínio Rodrigues e Rita Lee, chegou a vez do compositor e cantor Odair José ser homenageado em cena.
Para conseguir existir como obra original, "Eu Vou Tirar Você Deste Lugar", em cartaz no CCBB com dramaturgia e direção de Sérgio Maggio, tem então de enfrentar esse modismo em dose cavalar imposto ao teatro pela indústria cultural.
Tecnicamente bem executada e cenicamente vistosa, a montagem acaba enfraquecida nesse lugar estranho chamado falta de assunto.
O resultado é uma espécie de paradoxo, principalmente porque as lindas canções de Odair José, entre elas "Cadê Você", merecem toda a atenção nesse momento em que a nostalgia tornou-se uma fonte de inspiração para o circuito comercial.
O espectador que não viu outras peças do gênero tem mais chance de gostar. Mas quem viu alguns dos trabalhos acima citados corre o risco de ser tomado por uma forte sensação de déjà vu --e de se entediar, no fim das contas.
A peça reproduz um procedimento cênico comum: ela encontra na farsa e na revista um tipo de interpretação que possibilita intercalar canções no corpo da dramaturgia. A farsa trabalha estereótipos, e todas as peças que dela se serviram, juntas nessa onda, formaram um álbum de figurinhas. Tudo ficou meio igual, pasteurizado.
De qualquer forma, as canções de Odair José, bregas no bom sentido e muitas vezes bem-humoradas, combinam demais com o tom farsesco.
Pelo palco, desfilam personagens femininas, figuras de bordéis, uma empregada doméstica, um pai moralista e seu filho que quer ser músico e cair na estrada.
Destacam-se, no elenco, Jones de Abreu e a cantora Watusi, que arrasa no seu timbre parecido com o de Sarah Vaughan. A banda no centro da cena, assim como os arranjos, também merecem elogios. Os solos são melhores do que os coros.
Talvez não seja justo culpar "Eu Vou Tirar Você Desse Lugar" por um problema que pertence a um cenário inteiro. Mas, ao usar neste momento uma combinação à beira do esgotamento, a peça perde parte de sua força.




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