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domingo, 9 de novembro de 2014

Crítica/Trágica.3 - A arte tecida sobre a arte


                                  Fotos de Victor Hugo Cecatto/Divulgação
Miwa Yanagizawa, Denise Del Vecchio e Letícia Sabatella: teatralidade construída no corpo

Letícia Sabatella nos primeiros instantes: conexão com o âmbito das tragédias

Miwa constrói uma Electra de não tirar os olhos



Denise conduz uma Medeia surpreendente

Guilherme Leme Garcia nos ensaios: diretor de qualidade poética

Sérgio Maggio

Os primeiros instantes de Trágica.3 parecem distanciar o espectador do âmbito denso de três das maiores tragédias gregas que chegaram ao nosso conhecimento. O cenário remete à arte geométrica e a trilha, às experimentações sonoras, criando um clima de estranhamento. Ao piano, Letícia Sabatella inicia série de vocalizes que ganham corpo, volume e sentido. De repente, transformam-se num grito agudo, metálico, de dor pungente. O sofrimento épico feminino ecoa no ar. Numa fração de segundos, a moldura contemporânea dilui-se e ficamos ali atados ao fio do tempo que nos une à comiseração das personagens massacradas pelos desatinos familiares. Enquanto Letícia segue numa performance pulsante, o martírio que sai das entranhas dessas mulheres prevalece em cena. É materialidade que nos eleva a uma teatralidade construída na relação atriz e espectador.
Assim, cenário e trilha deixam o lugar de primeiridade para se transmutar em quase um tecido, uma pele que envolverá os três solos que sucederão. Em nenhum deles, essa epiderme vai ofuscar, concorrer ou até se sobrepor. Ao contrário, vai criar uma transição poética, etérea e fluída para que os lampejos das tragédias se tornem clarão quando necessário ou breu em sua completa ausência de humanidade, fazendo com que a plateia respire em sobressaltos de acordo com a regência das três atrizes - Letícia, Miwa Yanagizawa e Denise Del Vechhio.
Assim, quando Letícia levanta-se para assumir Antígona já estamos apiedados, quase de mãos dadas com o drama a ser narrada pela atriz de potente recurso vocal. O corpo de Letícia, um tanto curvado como quem carrega o peso de enfrentar o Estado, indica que a direção de Guilherme Leme Garcia será construída nesse jogo de movimentos contidos e explosão de sentidos construídos na partitura vocal e facial. Num furor narrativo, Antígona emerge com a força dos insurgentes, dos que têm pouco tempo para agir, dos que se sacrificam em torno de princípios. Letícia, Guilherme e Caio de Andrade (dramaturgo) traçam as linhas de força da tragédia, expõem miudezas da personagem e proporcionam uma abertura pungente com uma sequência de vocalizes interpretados ao vivo e sobrepostos em gravação que ficarão impressas na memória. Daqueles momentos em que, mesmo agora quando tudo é lembrança, sobreviveram à efemeridade.
É após esse êxtase, ou melhor essa catarse, que Miwa Yanagizawa entra em cena, senta-se em posição quase de meditação e, com o adorno do desenho de luz de Tomás Ribas, flutua como Electra. É impossível tirar o olho do jorro narrativo, gestual e vocal. Quase que hipnotizados seguimos respirando com essa atriz, que sempre que vem a Brasília está inserida num projeto de qualidade impactante. A imagem da Electra flutuante é belíssima e tem o seu ponto focal no rosto, no qual Miwa constrói o caminho de uma das mais cruéis das tragédias. Em fúria, vemos Electra voar numa construção visceral da personagem que deseja minuto a minuto matar a própria mãe. Há um novo impacto sobre a plateia. Talvez, porque Electra, com texto de Francisco Carlos, seja uma tragédia que põe os laços de sangue em constante xeque, tema atualíssimo no século 21.
A essa altura, sabemos que Medeia, com texto de Heiner Muller, vai finalizar o espetáculo e a personagem será vivida por uma intérprete que é uma das atrizes mais entregues ao ofício teatral de sua geração. Denise Del Vecchio entra silenciosamente em cena. Espera-se, então, o ápice da curva dramática, quando ela e Guilherme magistralmente viram o jogo. Um videoarte de duas crianças cria um distanciamento inicial e a atriz surge, como uma muralha, com voz gravíssima, a narrar o seu ponto de vista sobre os fatos que abateram a sua vida e vão conduzir ao assassinato das crianças.  Como quase um poema brecthiano, doce e violento, ficamos diante da narrativa épica que é construída por uma atriz e maestrina, que no conduz a uma recepção ativa sobre as difíceis decisões de Medeia. Somos capazes de até mapear as contradições da personagem num trabalho que arremata os três solos com genialidade.
Trágica.3 chega ao fim, mas sem antes falarmos da delicadeza em que se tornou a direção de Guilherme Leme Garcia. O que ele constrói em cena é um exercício sobre como fazer arte em cima de uma matriz artística inegável, base da formação teatral e humana do Ocidente. A participação de Fernando Alves Pinto e Marcelo H dizem muito sobre essa sensibilidade. São performers que interagem, tecem e dinamizam uma montagem de caráter universal, que atualiza as tragédias e nos fazem sentirmos pertencentes ao legado grego.
   Em cartaz no CCBB Brasília de 31 de out a 30 de nov
sexta 21h/ sábado 19h e 21h/ domingo 20h







2 comentários:

Anônimo disse...

Uau, que maravilha de crítica, me senti dentro do espetáculo

Livia de Assis

Anônimo disse...

Uau, que maravilha de crítica, me senti dentro do espetáculo

Livia de Assis