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sábado, 22 de março de 2014

O couro come gostoso em Gonzagão, a lenda



Sérgio Maggio

Luiz Gonzaga dizia que para fazer um forró da gota era preciso levantar a poeira, bater coxa e arrastar o pé do chão. O diretor João Falcão transforma essa máxima no jogo central de Gonzagão: a lenda, musical em cartaz na Caixa Cultural Brasília, de sexta a domingo, até 30 de março. Não demora o tempo de uma canção para que o espectador se entregue ao remelexo e lance-se de forma intensa e imaginativa nesse forrobodó que se acende vigoroso no palco, numa quebra instantânea dessa quarta parede.  

Numa estrutura de musical-show, Gonzagão mergulha na espetacularização do repertório consagrado do Rei do Baião num incessante vaivém de imagens que se abrem e fecham como se estivessémos diante de uma sanfona, que evoca um Nordeste que João Falcão dialoga com intimidade.
Conjugada a um trabalho monumental da diretora de movimento Duda Maia, a sofisticação das cenas
não cai no risco de estilização desse universo justamente por conta do laço sanguíneo do diretor, que neste trabalho é também dramaturgo. João Falcão acende o Nordeste de Luiz Gonzaga num campo onírico. Parece que estamos diante de um sonho, no qual o contexto de escassez e seca se transmuta para um território adereços e figurinos requintados (o trabalho magistral de Sérgio Marimba), sem perder a pujança da dor. Por vezes, toca no mundo teatral e fantástico de Ariano Suassuna. 
Com uma banda que respira junto com o elenco a cada movimento de cena, Gonzagão segue na chave de que as canções de Luiz Gonzaga, por si só, são autobiográficas. A teatralização desse repertório é a linha mestra da montagem abrindo espaço para a virtuose de intérpretes que cantam, dançam e interpretam as músicas do Rei do Baião como se estivessem em um show incessante. É possível se deliciar tanto com o desempenho do ator Adren Alves (num contraponto andrógino ao mundo masculino e grave do forró de Luiz) quanto da rabeca de Beto Lemos, ambos com o mesmo peso na montagem.
 Ao optar pela verticalização formal, João Falcão abriu mão das sutilezas biográficas. Nesse sentido, quem vai ao teatro esperando vasculhar a vida de Gonzaga pode sair um tanto incomodado. A dramaturgia em si não traz detalhes para além do que já se sabe. É confusa também a opção de João Falcão como autor em narrar a montagem ora por um sanfoneiro, ora por uma trupe de teatro, que entra meio perdida e se ilumina, sobretudo, pela presença de Larissa Luz (outrora a divina Laila Garin).  Talvez, por isso, o autor anuncie logo na primeira canção: "Por Deus perdoem os deslizes que certamente virão/ As imprecisões dos fatos/ Os erros de condução/ As relevantes ausências/ No enredo desse baião." Mas, na sequência, o couro come tão gostoso no centro que dá vontade de sair do teatro xaxando. Quer melhor ode à memória de Gonzagão que essa?  
        

Um comentário:

Rachel Mello disse...

ainda tem ingresso? qual a classificação indicativa? beijo.