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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Félix, o soberano



Sérgio Maggio

O personagem Félix, de Amor à Vida, voltou a vestir um terno de bom corte e usar sapatos lustrados. Está fino, mas não como antes, quando maquinava as vilanias eticamente mais questionadas da novela de Walcyr Carrasco. A metamorfose da personagem é, sem dúvida, o maior trunfo do autor que, a menos de quatro semanas para findar a novela, realizou a façanha de criar um tipo gay martirizado por questões na infância.
O Félix de agora consegue encher os olhos de desejo por outro homem, sem necessitar desviar por vergonha alheia. Precisou colocar um shortinho vermelho, flores tropicais no cabelo e rebolar à la Carmen Miranda para realizar o seu banquete antropofágico. Conquistou a sua liberdade sexual à sua  maneira. Fez isso depois de ser arrancado à força do armário em violenta cena realizada num dos momentos cruciais da trama, quando a mulher revelou a todos que o marido gostava de se divertir com homens.
A sequência foi crucial para se entender que o vilão Félix era fruto de uma construção de opressão do pai que o desprezava e o oprimia. O autor deixava claro que o menino cresceu tentando imitar e agradar o pai, mas recebia o desprezo por não ter o padrão masculino que garantisse o orgulho paterno.
Félix, o vilão, foi destronado e jogado em ambiente mais livre sexualmente. Na periferia e na companhia de uma ex-chacrete, pôde tatear a liberdade total. Foi paquerado por um mecânico e experimentou ser quem poderia ser, sem as máscaras da hipocrisia burguesa.
Nesse sentido, Walcyr Carrasco, numa ação brilhantemente pedagógica, mostra que ao experimentar tocar no que tanto o oprimia, os sentimentos de vilania perderam o sentido. A conversão do vilão Félix, portanto, não se trata de uma virada brusca sem pé nem cabeça da trama. Mas numa construção provavelmente pensada em gabinete, na evolução natural da personagem.
Agora, em sintonia com sua energia natural a personagem segue uma conversão cheia de nuances. È sintomático que nesse momento o algoz repressor, o pai, esteja cego, traído e humilhado pelo amor que julgava ser o correto. Caberá a Félix, na melhor linhagem da tragédia grega, ser o herói dessa saga que vai marcar a história da teledramaturgia por criar um personagem gay tão soberano. 

   


Um comentário:

Anônimo disse...

Belo texto, Félix é um patrimônio.

Sandra Mary