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sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Quanto custa? é Brecht no agora





 Sérgio Maggio

É de Brecht estes versos:

 "Ah, de que serve, com a lama até o pescoço, conservar limpas as unhas nas pontas dos dedos?"

É de Brecht a defesa inconteste da ética humana frente ao desvario da economia de consumo.

Em Quanto Custa?, em cartaz até 1 de dezembro, no Teatro I do CCBB Brasília, há uma metáfora inquietante que dialoga com o aqui e agora do Brasil, que recentemente escreveu um rol de problemas sociais, econômicos, comportamentais e políticos, os tangíveis e intangíveis, em cartolinas e foi à rua pedir uma revisão no seu sentido de existir. Na peça, adaptada de dramaturgia até então inédita de Brecht para os palcos brasileiros (Quanto Custa o Ferro e Dansen), um sujeito passa a comprar barras de ferro e dizimar uma vizinhança de pequenos capitalistas mesquinhos, numa estetização violenta à la serial killer. 
É quase que instintivo associar a ação desenfreada dessa personagem com a performance dos chamados black blocs (manifestantes violentos ou "vândalos", como prefere qualificar a grande mídia), que têm mudado o ambiente das chamadas manifestações pacíficas. No auge das passeatas brasileiras, estupefata, a opinião pública assistiu a alguns deles quebrarem, com barras de ferro em punhos, bancos 24 horas e outros símbolos da estrutura de poder capitalista brasileira. 
Entre a ficção de Brecht e os fatos brasileiros que tanto confundem o senso comum, fica a sensação sempre urgente de questionar os rumos da condição ética do ser humano perante o domínio da sociedade movida pelo poder financeiro, um eixo central no pensamento revolucionário brecthiano. 
Como julgar e entender as reações extremistas contra regimes, sejam políticos sejam econômicos, que naturalmente excluem e apartam? Os assassinatos de Quanto Custa? e o quebra-quebra das ruas brasileiras nos chamam a um delicado e difícil debate, que honestamente não sabemos como enfrentá-lo sem recorrer a um discurso de base legalista. Trancafiá-los os black blocs numa cadeia, talvez, só retardem esse enfrentamento.   

 Quanto Custa? traz em a essência do pensamento brecthiano, posto em cena com vitalidade que aproxima a combativa postura política e dialética do revolucionário teatrólogo alemão do mais heterogêneo público que possa vir degustá-lo.  Esse mérito em si já põe a montagem do diretor paulistano Pedro Granato alinhada a uma das mais caras premissas do dramaturgo alemão: a função pedagógica ou didática do teatro de elevar e potencializar o espectador. 
Até pela natureza mais simples da narrativa, mais fabular e menos imbricada dentro do repertório teatral do alemão, a dramaturgia de Quanto Custa? permite que a direção a envolvesse formalmente com recursos da cultura pop, como remissões aos cinema, aos quadrinhos e e a uma trilha que se afasta da proposta dos songs, canções introduzidas durante a peça e interpretada pelos atores com a finalidade de promover um distanciamento do público e uma imediata postura crítica. 

Pedro Granato abraça essa proposta, muita embora não seja radical nela, deixando aqui e ali evidentes alguns desses recursos formais de Brecht. O que de alguma maneira provoca uma estranheza estética ao, por exemplo, os atores só executarem um song ou o narrador em off apresentar especificamente um título didático para um dos quadros da cena. Talvez fosse melhor deixar correr livremente a narrativa tão bem envolvida por um delicioso timing de humor e de suspense. 
A construção brecthiana de Quanto Custa? traz em si fortes condições de afastamento do público, pelo profundo grau de alienação das personagens. Como não questionar a postura de um tipo que vende barras de ferro para o algoz de sua categoria? Como não ativar o raciocínio crítico quando um dos personagens, que vive a matar porcos, diz viver em paz e sem violência? 

O tratamento dessas questões está posto em cena numa simbiose entre a direção e o trabalho de ator (Luís Mármora, Pedro Felício e Ernani Sanchez) dentro das premissas do teatro épico, que dialoga também com outras questões formais: é possível montar Brecht com uma marca estética autoral sem trair sua essência política? Pedro Granato enfrenta bem essa proposta. A nós, espectadores, cabe questionar as inquietações vindas de Brecht. 


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