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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O Fantástico não inventou o Teatro Invisível


Sérgio Maggio

Pronuncie o nome Augusto Boal na Europa, na América Latina ou na África. Certamente, uma boa parte dos ouvintes vai te recepcionar de uma forma mais calorosa. Fiz isso na França, na Argentina e na Espanha. Augusto Boal é conhecido mundialmente pela magnitude do seu trabalho no teatro, sobretudo, no que viria a ser batizado de "teatro do oprimido". No Brasil, terra natal do teatrólogo, o nome de Augusto Boal enfrenta a roda feroz que tritura a memória nacional. 

Ainda não articulamos, na educação nem na mídia popular, as narrativas dos artífices da nossa construção de identidade cultural com a história oficial. Parece que vivemos, nós brasileiros, desconectados da tradição que nos trazem para o aqui e agora. No teatro, arte efêmera que morre a cada sessão, a situação é de avançado Alzheimer. 

Há pessoas e até jovens artistas que acreditam estar diante do novo, quando essa "novidade" desemboca historicamente de décadas. Outro dia, vi alguém falar da geração que inventou o stand up brasileiro nos anos 2000, como se nunca houvesse os shows de humor de Chico Anysio, Dercy Gonçalves e José Vasconcelos, que superlotavam os teatros brasileiros nos anos 1960.

No último programa do Fantástico, dia 04.08.13, o Teatro Invisível, de Augusto Boal, ressurgiu exatamente em sua essência e metodologia, sem que a TV Globo fizesse uma menção qualquer ao seu criador. Aos leigos, parecia que a produção teve uma ideia genial. A nós, que sabemos da importância dessa metodologia para o mundo, foi um choque.  

Quando criou o Teatro Invisível, Boal estava exilado na Argentina. Era persona non grata ao Brasil de botinas. A técnica foi concebida visando o combate de guerrilha das conciências. As pessoas presenciavam a cena, ensaiada com o rigor de uma peça de teatro convencional, e eram instigadas a ter uma participação ativa. Foi revolucionário e eu experimentei essa vivência já adulto, nos anos 1980, quando trabalhei no Polo Petroquímico de Camaçari, com o objetivo de criar consciência de greve.

É preciso fazer um pacto nacional em nome da nossa memória, se não corremos o risco de ser um gigante bobão, cheio de dinheiro e emendando uma besteira na outra. Talvez, esse seja um bom motivo para voltarmos às ruas.


Para saber mais sobre teatro invisível:

 O Teatro-Invisível que, sendo vida, não é revelado como teatro e é realizado no local onde a situação encenada deveria acontecer, surgiu como resposta à impossibilidade, ditada pelo autoritarismo, de fazer teatro dentro do teatro, na Argentina. Uma cena do cotidiano é encenada e apresentada no local onde poderia ter acontecido, sem que se identifique como evento teatral. Desta forma, os espectadores são reais participantes, reagindo e opinando espontaneamente à discussão provocada pela encenação.
A preparação do Teatro Invisível deve ser como a de uma cena normal, reunindo os principais elementos: atores interpretando personagens com caracterizações, idéia central; deve haver um roteiro pré-estabelecido, apresentando princípio, meio e fim e que deve ser ensaiado. A diferença consiste em ser uma modalidade que não revela ao público tratar-se de uma representação.



Um comentário:

Anônimo disse...

Eu tive a mesma indignação. Ainda bem que você resolveu escrever. E´voé

Damaris Quintino