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domingo, 7 de julho de 2013

Divina Olímpia



CULTURA | PERFIL »
Adorável bisbilhoteira
Criada por Marcos Caruso, a personagem Olímpia, de Trair e Coçar É Só Começar, há sete anos é interpretada por Anástacia Custódio, atriz formada na Faculdade de Artes Dulcina de Moraes
Sérgio Maggio - Redação
Publicação:03/05/2013 14:37Atualização:03/05/2013 14:40

Anastácia (esq.), na pele de Olímpia: a personagem é uma empregada que faz uma tremenda confusão na vida de um casal, por acreditar que o patrão trai a esposa

Se alguém pedir para a atriz Anastácia Custódio fechar os olhos e pensar em Brasília, um cheiro peculiar de um perfume feminino é inspirado da memória, embriagando os sentidos. Como se estivesse num filme, o cenário da megalópole São Paulo, que a cerca cotidianamente, dilui-se numa vertigem e ela é transportada para o centro de Brasília. Desaparece o burburinho de gente das ruas paulistanas, e o som que surge é do coração aos pulos. Daqui a alguns segundos, a Anastácia dessas lembranças, agora estudante de artes cênicas, vai esbarrar no elevador com a mestra e dona dessa fragrância única. As pernas vão tremer desordenadamente assim que ficar diante de Dulcina de Moraes, uma das maiores personalidades teatrais do Brasil no século XX.



Anastácia Custódio não se cansa de romper tempo e espaço quando o pensamento atravessa os mais de mil quilômetros que separam São Paulo de Brasília. Até quando sorri diante de plateia que lota teatros enormes para aplaudi-la efusivamente pelo desempenho em Trair e Coçar É Só Começar, a trajetória iniciada na Faculdade de Artes Dulcina de Moraes aparece como essência do ofício de atriz. “Dulcina falava do teatro de modo apaixonado, aprendi com ela o respeito ao teatro”, confessa.



Desde 2000, Anastácia Custódio, de 46 anos, está envolvida com o espetáculo de maior longevidade nos palcos brasileiros. São 26 anos ininterruptos e registros sucessivos no Guiness Book (de 1994 a 1997). Começou como stand in (atriz substituta) de Olímpia, a protagonista da comédia de Marcos Caruso e, em 2005, assumiu definitivamente o papel-chave da montagem vista por quase 6 milhões de espectadores e interpretada por um time de atrizes de primeira grandeza, como Denise Fraga e Marilu Bueno. “É um presente para carreira de qualquer atriz. Uma personagem riquíssima e um desafio diário. Não há como não se tornar uma profissional melhorada depois dessa experiência”, avalia.



Anastácia Custódia é a Olímpia de número 13, que perdeu a conta da quantidade de apresentações. Passa de mil sessões, com turnês de apresentações de terça a domingo e em cidades com jornada dupla. Na quinta-feira, geralmente, ela pega a estrada ou corta o espaço aéreo. Anástacia chega ao teatro duas horas antes, maquia-se, põe o figurino, corre o texto na cabeça e circula pelas coxias com exercícios de aquecimento de voz e de concentração. “Todos os dias, sem exceção, sinto um frio na barriga. É essa insegurança que nos motiva a buscar o acerto a cada espetáculo. Todas as noites, assim que saímos do palco, comentamos o espetáculo sugerindo alterações, ajustando cenas, corrigindo falhas, etc. É fundamental para mantermos o frescor do espetáculo”, revela.



Anastácia Custódio costuma dizer que gosta dos cheiros de teatro. É disciplinada, e isso ela aprendeu nos tempos de estudante em Brasília. Em sala de aula, compreendeu a complexidade de pisar no palco. Nascida em Montes Claros e com infância vivida em Montalvânia, ambas cidades do interior de Minas Gerais, Anastácia só tinha a vivência lúdica dos circos até chegar em Taguatinga, aos 14 anos. Foi ao teatro pela primeira vez aos 20, para ver Fedra, com direção de Augusto Boal e atuação de Fernanda Montenegro, na Sala Villa-Lobos. Ficou encantada. Tempos depois, passou pelo Conic e descobriu a existência da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes.
Inscreveu-se no vestibular e decorou o monólogo de Branca Dias, a heroína de O Santo Inquérito, de Dias Gomes, para apresentar à banca examinadora. Quem estava lá, de óculos enormes, batom vermelho-paixão e perfume indefectível? Dulcina de Moraes, que viu, com seus olhos exigentes, uma atriz. Quando Anástacia encontra na memória esse momento, o leitor já sabe o que acontece. O pensamento voa e ela baixa em Brasília. “Nossa, são tantas lembranças. Os amigos e os ensaios madrugadas adentro. Tinha o Mutirão de Arte, que transformava o Conic numa espécie de polo cultural dos mais ricos. Ah, o Teatro Dulcina e a Sala Conchita de Moraes, que tivemos a honra de inaugurar com a peça O Inspetor Geral. E claro.. Dulcina, ali, viva, diante de mim, presente dos deuses do teatro.”



Sempre que pode, Anástacia vem em carne e osso a Brasília. Tem parentes por aqui. Da vinda como profissional, uma emoção forte foi a apresentação de Trair e Coçar na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional Claudio Santoro, em 2005. Parecia mágica aquele mar de gente aplaudindo a atriz da primeira à última fila. O sentimento de vitória. Incentivada pela mãe, dona Terezinha, ela deixou Brasília e um emprego de servidora pública, em 1998 para dar uma guinada na carreira na competitiva São Paulo.



Matriculou-se num curso de interpretação de Attílio Riccó, à época diretor da peça de Marcos Caruso, e chegou a trabalhar de secretária e faxineira para se manter. Dois anos depois, fez o teste de stand in para Olímpia e ganhou um papel em Marcas da Paixão (novela da Record). Antes dessa reviravolta, tinha ficado diante da espevitada personagem na condição de espectadora. Da plateia, riu pelos cotovelos. Mas nunca imaginou um dia emprestar o talento a Olímpia. “A vida de atriz continua sendo uma batalha diária e, apesar das dificuldades e percalços, a paixão e o desejo de viver da profissão são ainda maiores. Mas tem sido uma vitória a cada dia. Talvez o caminho seja exatamente este: nunca desistir!”

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