Languages

sábado, 20 de julho de 2013

A história de Gabriel Preusse



Cidades | CIDADANIA »
O cara do contrabaixo
Músico há mais de 10 anos no DF, Gabriel Preusse é o responsável por alterar a regra do metrô que impedia o acesso do instrumento do tamanho de um homem aos vagões
Sérgio Maggio 
Gabriel Preusse foi barrado no
metrô, em dezembro, por causa
do seu contrabaixo: depois
de uma mobilização cidadã,
conseguiu, em abril, a autorização
para todos entrarem com
o instrumento
O menino Guildo não pestanejou. Largou a bicicleta ao chão e deixou para trás a família de ciclistas. De braços abertos, correu desembestado pela plataforma de embarque da estação 102 Sul: “Olha, é um contrabaixo!”. Gabriel Preusse, o dono do instrumento, abriu um sorriso de orelha a orelha. O garoto que vinha extasiado em sua direção parecia um presente do universo. A cena, um desses instantes que bem definem o conceito de felicidade, era como se fosse o grande desfecho para uma triste história da vida real. Quem testemunhou o encontro entre os olhos brilhantes do garoto, um aprendiz de escaleta, e do contrabaixista nem imaginou que, para estar naquele lugar, houve uma batalha pela cidadania, que durou meses e mobilizou até as redes sociais.

Era a primeira vez que Gabriel Preusse voltava à estação 102 Sul, onde foi barrado e tratado de forma ríspida em 14 de dezembro de 2012. Cinco meses tinham corrido e, mesmo tendo o compromisso formal da Ouvidoria do metrô sobre o acesso aos vagões, sentiu um arrepio de incerteza. Ao aproximar-se da catraca, empurrando o instrumento encapado e com rodinhas, viu um funcionário gentil abrir-lhe a porta para a entrada de grandes volumes. Suspirou aliviado. Agora, sim, podia, como um cidadão, ir e vir com o ganha-pão diário. “Houve um caso de um rapaz que tentou entrar com o instrumento e não conseguiu porque o tamanho excedia o nosso regulamento. Ele entrou em contato com o metrô e mudou essa regra”, contou o recepcionista, sem saber que Gabriel era o protagonista dessa história.

Até chegar a esse momento, nenhum contrabaixista podia viajar nos metrôs de Brasília. O fato parecia absurdo. Para o aposentado Camilo Sérgio, surreal. Ele, que sempre conviveu com o piano da esposa em sua sala de estar, espantou-se ao conhecer a saga que Gabriel Preusse cruzou para liberar o instrumento de trabalho no metrô. “É uma história digna de louvor, sobretudo, pela forma como ele conduziu.”

O menino Guildo (esquerda), aprendiz de escaleta, ficou extasiado ao ver o contrabaixo na estação: a sua família de ciclistas também usa o compartimento de grandes volumes do metrô

Nascido em Ipatinga (MG) e criado desde menino em Brasília, Gabriel Preusse faz parte de uma novíssima geração de brasileiros que põe a sete palmos nefastos conceitos sobre a imagem do Brasil, como a vergonhosa “lei de Gérson” (a de levar vantagem em qualquer situação). Desde que foi barrado e tratado de forma rude por uma funcionária do metrô, Gabriel Preusse abriu mão dos sentimentos individuais para buscar o direito coletivo dos instrumentistas. Compreendeu que a mulher furiosa, que via o instrumento de som divino como um trambolho, não tinha discernimento e cumpria cegamente a ordem de barrar volumes que extrapolassem a regra vigente. “Não quis culpá-la. Quando me sentei ao computador para mandar um e-mail para a Ouvidoria, queria que essa situação fosse resolvida do ponto de vista do coletivo”, lembra-se Gabriel.


A primeira mensagem foi pedagógica. Começava explicando a origem do contrabaixo acústico, com direito a fotos do instrumento numa orquestra erudita e numa performance de jazz, e terminava clamando pelos direitos dos contrabaixistas brasilienses de circularem livremente pelos vagões. Revelava ainda que, em São Paulo, ele não só viajou de metrô como também foi auxiliado por funcionários que o encaminharam para a rota mais acessível. “Recebi uma resposta burocrática, que fazia menção à lei que regulamentava o transporte de objetos e dava por encerrada a minha reivindicação”, conta Gabriel, músico profissional há 10 anos no DF e recém-formado pela Universidade de Brasília (UnB).

Se o problema era a legislação, Gabriel Preusse rebateu com uma à altura. Abriu a Lei Orgânica do Distrito Federal, baseada na Carta Magna do país, e enviou para o metrô o artigo terceiro, que lista os direitos do cidadão. Ao mesmo tempo, postou em sua página do Facebook um passo a passo sobre a história, que teve impacto e repercussão imediata. A socióloga Graça Ohana, mãe de um dos amigos músicos de Gabriel, ficou abismada com a narrativa inacreditável. Especialista em estudos de emprego e desemprego no país, ficou sem entender como um meio de transporte público moderno pode vedar a circulação de um instrumento que traz o sustento de uma pessoa. “Acompanhei a batalha dele e, num certo momento, sugeri que a gente poderia adaptar esse triste fato para uma história infantil, no formato de um livro, um curta-metragem ou uma peça de teatro. Sensibilizar as crianças sobre os seus direitos”, conta Graça, que agora desenvolve, com Gabriel, o embrião desse projeto.

Da rua, Gabriel começou a ouvir burburinhos sobre o tal “cara do contrabaixo,” que quer viajar de metrô e estava questionando a Ouvidoria. Recebeu a ligação de um amigo que testemunhou funcionários de uma estação comentando sobre o fato. Foi até parado na rua por pessoas que receberam o compartilhamento do post no Facebook. De alguma forma, a fé em resolver essa situação tinha aumentado. Até a Ouvidoria do metrô tinha ligado para pedir mais esclarecimentos. “De repente, recebo um novo telefonema comunicando que eu, Gabriel Preusse, tinha autorização para embarcar, sozinho e com meu violoncelo. Pô, é um contrabaixo!”

Gabriel não pensou duas vezes. Corrigiu o lapso semântico da funcionária e mandou a mensagem: “Quero deixar aqui registrado que a minha reivindicação é por uma causa coletiva. Por melhoria dos transportes públicos e melhores condições de mobilidade urbana na capital federal.” O desfecho viria com a decisão do departamento jurídico do metrô, que autorizou, sem restrições de horário, a viagem dos contrabaixistas no último vagão do trem desde que acondicionado adequadamente. Assim, desde 8 de abril de 2013, a história foi reescrita e coube a Gabriel Preusse dar um outro fim.


José Victor Carvalho aprova a
decisão do metrô em permitir o
acesso dos músicos com
instrumentos, mesmo grandes:
"Deveria ter música ao vivo nas estações",
sugere
Barrados na roleta

O metrô tem regras para embarque e conduta. Objetos com volumes superiores a 150 x 60 x 40 cm não podem embarcar. Por isso, o contrabaixo acústico estava proibido. Passam livremente bicicletas não motorizadas, que devem embarcar no último vagão, cadeiras de rodas, carrinhos de bebê. Um funcionário da Estação Shopping conta que um usuário tentou entrar com uma máquina de lavar zerada e tirada da loja a preço promocional. Animais também são barrados, até os pets acondicionados em gaiolas de transportes. A exceção é para o cão-guia.  É proibida a entrada de produtos inflamáveis.

Música no metrô

Quando o menino Guildo correu para ver de perto o contrabaixo acústico, o pai Silvio Caires admitiu: “Pensei que fosse um violoncelo”. A confusão entre os dois instrumentos no Brasil é pertinente pela falta de conhecimento da grande parte da população, desacostumada, sobretudo, com os concertos de música erudita. À primeira vista, os instrumentos da subfamília dos violinos até podem ser parecidos, mas as dimensões afastam qualquer semelhança. O contrabaixo acústico tem em média 1,82 metro, enquanto o violoncelo, pouco mais de 1 metro.

O instrumento de Gabriel Preusse está presente tanto em orquestras eruditas como em formações da música popular, sobretudo, o jazz. No Brasil, compõe o naipe de instrumentos de grandes artistas da MPB, a exemplo de Maria Rita. O contrabaixo acústico pode ser tocado com o músico em pé ou sentado num banco especial, por meio de um arco ou beliscadas de dedos (movimento conhecido como pizzicato, muito usado para formações em jazz).

Enquanto aguardava para embarcar no metrô, Gabriel Preusse sanou as dúvidas do servidor público José Victor Carvalho. “Quando vi, achei que era um violoncelo. E o Gabriel me deu uma aula de música e de vida. Estou feliz com essa decisão sensata de deixar o músico embarcar com seu instrumento de trabalho. Aproveito e mando um recado ao metrô do DF. Ponha música ao vivo nas estações. A viagem vai ficar mais saborosa”, sugere.

Exemplo para o Rio

A vitória coletiva de Gabriel Preusse repercute no Rio de Janeiro, onde os contrabaixistas estão proibidos de viajar desde 2008. Os músicos foram mobilizados pelo professor de contrabaixo da UnB Alexandre Antunes, mestre de Gabriel. Ele mandou a história para os artistas fluminenses como um exemplo motivador. “A questão do Rio de Janeiro é o colapso de passageiros. Os trens não dão conta de tanta gente. Mas estamos tentando sensibilizar o metrô. Isso implica uma perda para o trabalhador, que não pode se deslocar com facilidade com um instrumento tão grande, o que encarece até o cachê”, observa Alexandre. Durante a campanha de Gabriel Preusse na internet, surgiu até uma charge de um ilustrador, que desenhou um contrabaixista equilibrando o seu instrumento numa bicicleta, unindo, dessa forma, a busca dessa geração por uma mobilidade sustentável nos grandes centros urbanos.

A força no Facebook

Desde que iniciou a batalha para os contrabaixistas entrarem no metrô, Gabriel Preusse
mobilizou as redes sociais. Foram mais de 500 interações entre usuários que curtiram,
comentaram e compartilharam dois posts. “Agradeço demais a força de todos.
Foi apenas uma luta por direitos coletivos que estavam sendo esquecidos”, ressalta Gabriel



Um comentário:

Anônimo disse...

Que coisa linda este Gabriel Preusse

Parabéns

Laulinha