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domingo, 16 de junho de 2013

Tatiana Belinky, a menina de 94 anos

Foto: Leonardo Rodrigues/e-SIM/reprodução web

Sérgio Maggio

Tatiana Belinky morreu hoje (15 de junho) aos 94 anos. O corpo estava envelhecido, mas a alma era de menina curiosa, ou melhor, xereta, palavra que tanto prezava. Conservava em si a mesma garota que, aos 4 anos, aprendeu a ler em russo, dentro de um ambiente familiar no qual o livro era uma onipresença. 
Era uma casa sem estantes. As pessoas andavam com o livro em mãos. Tinha livro debaixo da cama, da mesa e até no banheiro. Nascida numa família afinada com as artes, o pai era um performático senhor que adorava as letras e as práticas de representação; a mãe uma cantora poliglota que passeava por diversas línguas, Tatiana não poderia ter um outro encontro que não fosse com o universo artístico. 

 – Sou antiga, mas não sou velha, porque dentro de mim continua vivinha a criança que fui e isto me permite estar em sintonia com crianças e jovens, com quem procuro repartir minhas curtições de ontem e de hoje. Meu prêmio maior é saber que meus livros irão para as mãos das crianças, e se elas sorrirem, ou se emocionarem ou ficarem pensativas, eu ficarei feliz.

Nascida em São Petersburgo, Tatiana chegou ao Brasil aos 10 anos, com a família fugida das guerras civis que assolavam a União Soviética. Conta-se que o pai, também versado em várias línguas, aprendeu português durante a viagem de navio ao Brasil. Aqui, ela caminha naturalmente para o teatro, ao lado do marido João Gouveia. Juntos, começam a adaptar textos que trazem questões humanísticas para a cena infantil. Numa dessas montagens, Os três ursos, de 1952, acaba chamando a atenção da TV Tupi. O casal torna-se pioneiro ao adaptar textos brasileiros. O maior sucesso é O Sitio do Picapau amarelo, de Monteiro Lobato, a primeira versão televisiva segue encantando adultos e crianças até 1966.

  Apaixonada pela personagem Emília, Tatiana Belinky segue carreira dedicada à escrita infantil. O segredo: escrevia do jeito que falava com as crianças. Tinha um olho divino e a maior parte das histórias vinha do real, como crônicas nascidas de uma forma de ver delicada sobre a vida. 

 –  Quando eu era pequena, queria ser bruxa. Porque bruxa tem poder. Não bruxa feia. Queria ser bruxa bonita. Como a madrasta da Branca de Neve, que era linda. Mas, depois que eu conheci a Emília, eu disse “não, agora quero ser a Emília”. Muito melhor. Ela também tinha poderes: o poder do senso do humor, o da contestação.

Tatiana Belinky deixa um legado fantástico de livros e histórias que nos fazem retornar a infância a cada palavra, aliás, ela tratava as palavras como carinho e zelo. 

 – A fantasia é tudo. Sempre digo aos pequenos que o livro é um objeto mágico, muito maior por dentro do que por fora. Por fora, ele tem a dimensão real, mas dentro dele cabe um castelo, uma floresta, uma cidade inteira... Um livro a gente pode levar para qualquer lugar. E com ele se leva tudo.
   


Um comentário:

Anônimo disse...

Encantou-se, esta menina xereta

Nadina