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domingo, 19 de maio de 2013

O bem-amado




Dias Gomes: obra influencia até os dias de hoje // Crédito //  Arquivo Rede Globo


Viva e atemporal, a obra de Dias Gomes, um dos responsáveis por abrasileira o teatro nacional, é legado que resiste ao tempo. Ainda neste semestre, a TV Globo reedita Saramandaia

Sérgio Maggio
Especial para o Correio

A madrugada de 18 de maio de 1999 foi cruel com a dramaturgia nacional. Um acidente brutal interrompeu a escrita de um homem que estava na linha de frente de uma geração que abrasileirou peças, novelas e filmes. Tinha 76 anos quando teve a vida engolfada por uma estúpida imprudência de trânsito. No choque mortal com o ônibus, perdeu-se a genialidade de Dias Gomes, cuja escrita de traço universal ainda pulsa e reverbera. Ainda neste semestre, a TV Globo remonta um dos maiores sucessos: Saramandaia, a novela assentada no realismo fantástico sul-americano, que alegrou um triste Brasil de 1976. Em plena ditadura militar, o espectador arregalou os olhos para testemunhar João Gibão voar, livre como um pássaro fora da gaiola, sobre uma cidade dominada por coronéis, que colocavam formigas pelas narinas. Parecia um sonho, como, aliás, foi movida a trajetória desse autor sem fronteiras de linguagem.
— Consigo pilotar meu barco ao sabor dos ventos, mas sei que há muito mar pela frente. Talvez nunca chegue ao porto. Tomara mesmo que não, pois o melhor da viagem é estar nela, escreveu Dias Gomes na autobiografia Apenas um subversivo, publicada um ano antes da morte.
Dias Gomes era um menino quando chegou ao Rio de Janeiro num esquisito tempo de entre guerras. Cresceu num o país vigiado pela ditadura getulista. Ali, em 1942, a cabeça fervilhava de ideias, algumas politicamente perigosas para a época. Mesmo sem querer pegar em armas, o rapazote corria riscos. Queria fazer teatro. Não sabia ainda que a dramaturgia seria a munição para o incômodo que estaria por vir. Dias Gomes se tornaria um dos mais censurados autores do país.
Nesse ano incerto de 1942, o jovem andava pelo burburinho cultural da Cinelândia e sonhava ter o nome estampado nos letreiros luminosos. Um dia, respirou fundo e entregou textos para duas figuras míticas da cena nacional: os rivais Jayme Costa e Procópio Ferreira. Os dois ainda trabalhavam como se fossem vedetes tradicionais. Não participavam de ensaios diários, só apareciam às vésperas das estreias para aprender as marcas espaciais do palco e não compreendiam o texto como um todo, dependendo do tradicional Ponto, aquele profissional que soprava o texto da coxia.

 Menos intelectual, Jayme Costa ficou reticente com o primeiro texto entregue por aquele jovem, Amanhã será outro dia. Então, fez um desafio ao rapaz. Pediu para que ele escrevesse uma sátira à peça Deus lhe pague, de Joracy Camargo, o primeiro sucesso teatral genuinamente brasileiro naquela metade de século, protagonizado extraordinariamente pelo desafeto, Procópio Ferreira. Dias Gomes correu e concebeu Pé de cabra. O ator leu e ficou com medo danado de ter problemas com o Departamento de Imprensa e Propaganda, o temido DIP. A peça acabou nas mãos de Procópio. E lógico, foi devidamente censurada. Dez páginas cortadas e o autor taxado de marxista sem nunca ter lido Karl Marx.
— Na noite de estreia, o público aplaudiu de pé quando Procópio me chamou no palco. Houve mesmo um “oh”, quando ele revelou que tinha apenas 19 anos. Talvez, a minha pouca idade para que os críticos não enxergassem os defeitos do meu texto e exagerassem as suas qualidades, escreveu Dias Gomes.

Premonição

Crítico tradicional do jornal Amanhã, Viriato Corrêa não só alardeou aos quatro cantos as maravilhas da montagem como também fez um trocadilho premonitório: “Mais dias menos dias, Dias Gomes será o escritor mais festejado da cena brasileira”. Demoraria quase duas décadas para atestar a previsão. Em 1960, todos estariam aos pés de Dias Gomes com a montagem de O pagador de promessa, produzida pelo Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), até então marcado pelas adaptações de textos internacionais. O espetáculo renderia uma chuva de prêmios para o autor, o diretor Flávio Rangel e o ator Leonardo Villar, como Zé do Burro, que dividia o palco com intérpretes do porte de Cleyde Yáconis, Stênio Garcia e Nathália Timberg.
     — A partir do TBC, O pagador de promessa iniciou vitoriosa carreira em que alcançou unanimidade crítica, tanto no país como no exterior. Lembro-me apenas de um crítico que lhe fez algumas restrições, Bárbara Heliodora.
O sucesso da peça transformou Dias Gomes num autor requisitado. Em 1962, os inquietos artistas do Teatro de Ipanema, comandado por Ivan Albuquerque e Rubens Corrêa, montariam A invasão, no mesmo ano em que O pagador de promessas cumpria a façanha de ganhar a Palma de Ouro, em Cannes. O povo estava virando protagonistas dos palcos e esta, talvez, seja a maior contribuição do autor, num tempo em que era preciso encontrar uma identidade nacional diante da ameaça armada dos militares. O berço do herói e Santo inquérito justificariam a fase frutífera do dramaturgo, que seria abatida pelo censura implacável. A primeira foi interditada às vésperas da estreia, a segunda, reflexo da perseguição, surgiu em forma de parábola quase histórica, ambientada na inquisição católica.
— Iniciava-se um período de trevas. Muitos achavam que não duraria seis meses — mas durou 20 anos. Curiosamente, o teatro foi eleito perigoso inimigo do novo regime. Talvez, porque fossem das casas de espetáculos, das assembleias que aí se realizavam, dos manifestos que delas resultavam que partiam os primeiros protestos contra a ditadura instalada, escreveu Dias Gomes. 

 


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