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terça-feira, 19 de março de 2013

Opinião // Éramos Gays



Por Sérgio Maggio

Há uma comunhão entre o espetáculo Éramos Gays, em cartaz no Teatro Módulo, em Salvador, e o mundo que gira em sua volta. Enquanto os bailarinos do musical baiano dançam e cantam "éramos gays/ éramos reis/ éramos o recheio do bombom francês", o universo se move em velocidade, numa batalha contra os conservadores, para integrar os direitos de gays, lésbicas e todas as outras multivariedades sexuais no sistema universal de direitos humanos. Aqui, no Brasil, assistimos à patética eleição de um pastor retrógrado e preconceituoso para liderar a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. 
Enquanto o povo ocupa as ruas do Brasil pedindo a anulação dessa eleição pífia, os atores do musical baiano, assinado por Aninha Franco e Adrian Steinway, requebram e incendeiam o palco numa potente combinação entre diversão e política. A dramaturgia de Aninha Franco, no bom sentido, é panfletária, sem medo de levar pedradas dos que querem uma narrativa mais poética. Nesse projeto, a autora deixou para as coreografias e as canções o papel de suavizar as palavras certeiras, com direção e endereço certo: o convervadorismo. O que sai da boca dos atores mistura história, filosofia, religião e posições declaradamente políticas como se Éramos Gays estivesse numa trincheira de uma guerra. A crítica à religião, por exemplo, não é a fé, tão presentificada no musical pelo culto à vida e ao São Sebastião, apropriado pelos gays sem igreja.
Passeando pela história da humanidade, Aninha Franco traça mais ou menos um esqueleto da historiografia gay, sem perder o humor e a picardia que marcam a sua trajetória de dramaturga. Até chegar a esse momento, no qual o velho e o novo tempo se trincaram, Aninha Franco constrói e aponta para um outro mundo de possibilidades: pós-gay ou humano, como ela prefere anunciar. Um tempo no qual não será mais importante apontar as relações homo ou hetero, mas, sim, as qualidades afetivas e a complexidade do gênero sexual humano.
Em contraposição, o discurso firme de Aninha Franco é envolvido pelo formato do entretenimento dos musicais norte-americanos, com forte e anunciado vínculo da Broadway, pelas mãos de Adrian Steinway, que constrói coreografias-shows, que desenham, aos olhos dos espectadores admirados, movimentos que se emendam no palco, num ritmo quase frenético. Sonoridades diversas e brasileiras, como o arrocha, o axé e o samba-de-roda, não deixam, no entanto, que Éramos Gays se americanize, apesar dessa marca Broadway ser assumidamente evidenciada, com coreografias de Jim Cooney. O elenco (Amaurih Oliveira, Daniel Rabello, Felipe Velozo, João Paulo Souza, Jorge D' Santos, Mario Bezerra), nitidamente dentro da proposta, ajuda a construir um musical pulsante.
O que se assiste é um musical-show que gira sobre vários aspectos de um tema, sem necessidade de criar uma aprofundamento dramático. As canções e as coreografias divertidíssimas conduzem o espectador a pensar e suavizar sobre o ponto de vista forte e politizado. Em cartaz desde janeiro, o espetáculo ainda precisa burilar o segundo ato, no qual se espera o aparecimento triunfal da personagem Alice Kate, presa em seu armário doloroso, num ótimo argumento de Aninha Franco (ela se salvou de um acidente aéreo, que matou 399 bibas e jurou se tornar hetero). Quando Alice chega em cena, há uma certa perda de vigor nessa expectativa. Mas nada que a temporada e uma mexida dramatúrgica não possam resolver e equipará a força do segundo ato ao primeiro, naturalmente vigoroso.
Ao final, há uma felicidade explícita de quem sai de Éramos Gays. E é uma alegria nitidamente inteligente. Riu-se e pensou-se. Quiçá, transformou-se, como se pede esse tempo de transição de colisão entre o Velho e o Novo.   


FICHA TÉCNICA:

Texto: Aninha Franco

Direção: Adrian Steinway

Assistência de Direção: Jorge D' Santos

Música: Gerônimo Santana, Capinan, Renato Fechine, Serginho Nunes (Adão Negro), Aninha Franco e Adrian Steinway

Elenco: Amaurih Oliveira, Daniel Rabello, Felipe Velozo, João Paulo Souza, Jorge D' Santos, Mario Bezerra

Produção: 8Bisz

Coreografia: Jim Cooney

Cenografia: Rodrigo Frota

Figurinos: Heitor Werneck

Programação de Midi: André Santana e Fábio Camargo

Iluminação: Marcelo Marfuz

Preparação Vocal: Kiara Sasso, Ricardo Nunes e Fgo. Marcus Carvalho
 
Éramos Gays
Quando - Sexta, sábados e domingos, às 20h
Onde - Teatro Módulo, Pituba
Valores - sextas: R$40 (inteira) / R$20 (meia); sábado e domingo: R$ 50/R$25. até 28 de abril


3 comentários:

Anônimo disse...

Uau, assisti ao espetáculo há duas semanas e saí comentando sobre a importância desta montagem para este momento histórico e de transição. Divertidíssimo e potente. Viva a essa retomada do teatro baiano, há tempos sem um sucesso

Sandra Mattos

Candida disse...

Concordo. Éramos Gays é uma diversão inteligente. Vi duas vezes.

Candida

Anônimo disse...

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