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quarta-feira, 27 de março de 2013

Fragéis como uma peça de vidro




Delicados vidros fragéis

Sérgio Maggio

Um pavilhão de frágil objetos de vidros é ponto de estranhamento num palco-casa que, minuto a minuto, estabelece a construção de uma intimidade familiar. Aos poucos, os espectadores de Nada, uma peça para Manoel de Barros, montagem em cartaz até 31 de março, no Centro Cultural Banco do Brasil, partilham um sentimento comum de pertencimento a uma família que os recebe com afeto para a comemoração de 80 anos do patriarca, interpretado, com intensidade, pelo ator Lafayette Galvão. 
O que acontecerá nos próximos 90 minutos será uma experiência única para cada espectador, que adentra num tênue campo entre ficção e realismo, permitindo que alguns se esqueçam que estão diante de uma materialidade teatral e se comportem como se estivessem na casa grande de uma família do interior brasileiro. 

É engenhosa a construção dessa relação delicada entre ator/espectador em Nada, uma peça para Manoel de Barros. Os diretores Adriano Guimarães, Fernando Guimarães e Miwa Yanagizawa trabalham nas miudezas da cena, por vezes, de ações simultâneas de forma que o espectador tem a liberdade de eleger o foco, mesmo tendo um como prepoderante. Assistir ao espetáculo na circunvizinhança da cadeira de balanço de Lafayette Galvão é uma experiência única. Em atuação o tempo inteiro, o intérprete trabalha mínimas e lentas ações, como o fechar dos olhos quase adormecidos e o movimentar, como se fosse um tique nervoso, da muleta. Acompanhar a montagem a partir de suas reações é tão pulsante quanto transitar o olho por esses múltiplos focos. 

A escrita dramatúrgica da montagem (dos Guimarães com Emanuel Aragão) cria a poética de Manoel de Barros sem didatismos. É possível entender, até pelo deslocar da narrativa, o Tempo como uma categoria fundamental no pensamento poético do escritor. O tempo de observar esses detalhes é proposto aos espectadores como um exercício de aprendizado. A sensação é de que caminha melhor pela montagem aqueles que não se lançam tão vorazmente à festa em família. Os que entram gradativamente sentem o impacto de estar ali inseridos numa estrutura humana e delicadamente afetada pelo tempo.

As relações humanas em Nada estão expostas como cada uma daquelas delicadas peças de vidro da cenografia pungente. Sobretudo, as femininas, marcadas por silêncios, hiatos, não ditos, desencontros, jogos de pequenos poderes, numa equação resolvida com força e sensibilidade pelas atrizes Miwa Yanagizawa, Liliane Rovaris, Lúcia Bronstein e Camila Márdila (dona do monólogo mais difícel da montagem, pautado a partir de uma reação nervosa e subjetiva, que provoca simultaneamente estranheza e emoção). 
Os contrapontos masculinos são doces, apesar de patriarcais. Além de o genial Lafayette Galvão, Otto Jr. (sempre bom vê-lo em cena em papéis tão versáteis) e Rodrigo Lélys (potente e afetuoso em seu humor e sua naturalidade)  ocupam, com primor, os pápeis de construção de um doce vida sabia e besta, no sentido mais poético da palavra. 

Esse elenco harmônico conduz a plateia, quase sem que ela perceba, para o meio do palco. O intervalo de 20 minutos, quando todos se deliciam à mesa, dançam e se conhecem melhor, é o termômetro dessa condução delicada da direção/dramaturgia. Ali, entre uma cachacinha e um pão de queijo, a quem se sinta aconchegado, a quem se sinta tão frágil como uma daquelas peças de vidro. Aliás, somos tão frágeis como uma delicada peça de vidro. Esse, talvez, seja um pensamento essencial que nos aproxime tanto da poética de Manoel de Barros quanto da arte que ergue Nada.

Lafayette Galvão entre o elenco feminino

                 





   

4 comentários:

Anônimo disse...

Fiquei com vontade de assistir. Belo texto

Ana Biscaia

Anônimo disse...

Vi aqui no Rio. Sensacional, lindo e emocionante como você descreveu

Vanusa Rios

Anônimo disse...

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