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sábado, 12 de janeiro de 2013

Jogo de poder nesta Navalha na carne




Sérgio Maggio

Há um fascínio sobre o texto Navalha na carne, de Plínio Marcos, quase como uma mística que o cerca. É imaginar cada palavra ressoando originalmente, numa primeiridade, sobre os ouvidos dos espectadores de 1967. O que passou na cabeça de cada um ao ser submetido a uma experiência tão contundente?

Sempre que leio (e releio sempre este texto, algumas passagens sei de cor de tanto que tenho apreço), imagino que muitos viveram o choque, seja por repulsão, seja por deslumbramento. Penso que é como se Plínio Marcos pegasse pelos cabelos cada espectador urbano e de classe média e o arrastasse para a greta de uma porta a fim de espiar que a vida pode ser outra vida. Para uns quase inumana, para outros capazes de transformar a forma de ver o mundo, que corria torto naqueles anos virados de censura e de castração.

Quase meio século separam este 1967 do aqui e agora, e Navalha na carne continua sendo um texto caro, que deve ser tratado como uma relíquia, polida e exibida como uma das nossas joias dramtúrgicas mais estimadas. Daquelas que não pedem jamais um olhar antropológico ou museológico, mas sobretudo, a mirada do desejo e do fascínio, com as possibilidades de explorar as camadas, aqui humanísticas que a dramaturgia de Plínio traz intrinsicamente.

Talvez, por isso, seja tão urgente e essencial ficar diante da Navalha na carne, com direção de Rubens Camelo, e atuações viscerais de Marta Paret, Rogério Barros e Danilo Watanabe, em cartaz num porão da Funarte em Brasília, hoje (12/01) e amanhã (13/01), dentro da ótimo projeto de Ocupação Em Cena no Planalto. 

Com o texto na íntegra impresso nos corpos dos atores, a peça de Plínio Marcos não só explode, como deve ser, em energia. como explora e evidencia o jogo de xadrez montado pelo autor a fim de movimentar a mutável relação de poder entre três personagens, que, aos olhos do senso comum, valem pouco, mas que, entre si, possuem cada um o seu instante de liquidar com os parceiros no desejado xeque-mate.

Esta adaptação de Navalha na carne é um trabalho meticuloso de ator, extremamente equilibrado e generoso. Cada um dos três intérpretes sabe se colocar como observador vivo quando o jogo se desloca para os duelos, numa engenhosidade de Plínio Marcos, que, hoje, soa muito mais poderosa do que a matriz realista da marginalidade.

Bem colocadas à boca, as gírias e expressões datadas e fora de uso ganham poesia e textura estética. O resultado é uma experiência hiper-realista, quase física, de como é complexo viver a um, a dois ou a três. Um tratado humanista como é, e sempre será, cada verso dramático de Plínio Marcos. 

4 comentários:

Anônimo disse...

Caramba, Sérgio amo este texto. Vou correndo amanhã para a Funarte, obrigado pela crítica, senti vontade de ver. Nem toda atriz pode ser Neusa Seuli, nem todo ator, Vado nem Veludo. Uau

Márcio Lins

Anônimo disse...

Cara, vou também... Estou precisando ver um bom teatro e ainda, com sua chancela...

Matheus Dias

Rachel Bardawil disse...

Emocionante, um classcio!

Rachel Bardawil disse...

Emocionate! Um classico...