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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Um pouco mais de gentileza


                                                            Sérgio Maggio

O que passa pela cabeça de uma pessoa que tenta atravessar uma via com carros, no mínimo, a 80km/h? Eu não consigo imaginar. Seria falta de amor à vida? Ou a completa ausência de noção de perigo? Em alguns momentos, essa cena fica ainda mais insana, pois ocorre nas cercanias de uma passarela de pedestre. Quem pega a estrada todo dia, para vir das cidades do DF ao Plano Piloto, sabe como o trânsito anda agressivo. Muitos motoristas desrespeitam as regras de segurança, e por que não, o bom convívio. Saem costurando os automóveis alheios numa demonstração performática de suposta habilidade. Invadem a pista reservada aos ônibus, táxis e vans escolares, mandando o recado do vale-tudo às autoridades ausentes. Agora, pense se esses algozes da estrada encontram pela frente um ser humano sem juízo em disparada de uma margem à outra da pista?
Recentemente, uma mulher foi atropelada próxima à entrada de Taguatinga na pista exclusiva de ônibus por um carro de passeio. Os dois estavam errados. A insensatez de ambas as partes é indício de que se precisa investir em educação no trânsito. Pedestres e motoristas necessitam sair da “ignorância”. O trânsito é um sistema vivo de ação e reação. Uma olhadinha para o lado a fim de atender o celular e lá estamos nós dando uma “beijoca” no fundo do carro que pacientemente aguardava o movimento de saída de uma fila engarrafada.
 Quantos acidentes são causados por uma imprudência que julgamos banal? Repare: alguém estaciona no meio da rua, na famigerada fila dupla, e impacientemente, o carro que vem atrás passa para a outra faixa sem olhar devidamente para o retrovisor. Isso justamente no instante em que um motoqueiro ultrapassar pelo lado... Já contou quantas motos foram vistas por você espatifadas no chão neste ano?  É fácil botar a culpa no motoqueiro ou no ciclista e, alguns realmente são imprudentes, mas a maioria tomba no asfalto pela arrogância dos veículos mais pesados.
Falta gentileza no trânsito. Não adianta parar na faixa de pedestre para alcançamos o título de “motoristas do ano”. É preciso tomar uma consciência global. O que custa dar a vez para quem está em apuros precisando cruzar a avenida e fazer o retorno? Está na moda alguns religiosos colocarem adesivos em seus veículos para propagar a sua fé. Pois bem, eu canso de testemunhar esses motoristas fazerem barbaridades na estrada. Que fé é essa que só funciona no templo? Não vai me dizer que na hora de acelerar, o diabo assume o volante e risca a estrada espalhando o cheiro da morte?
Às vezes, tenho a sensação que alguns motoristas me xingam de todos os impropérios só porque eu me mantenho dentro da velocidade máxima. Outro dia, um deles encostou no fundo, jogou os faróis potentes que quase me cegaram, perdeu a paciência, arrancou para a direita, ultrapassou-me e gritou palavras que não consegui entender, mas senti toda a vibração de ódio.
Preciso confessar que há uns 10 anos eu era mais agressivo no trânsito. Xinguei algumas pessoas que julgava lerdas. Uma vez, chamei uma mulher de “onça”, não me pergunte por que. Também bebia e dirigia em época anterior à campanha do álcool zero. Já sai ziguezagueando do Beirute para casa. Quanta ignorância! Nesta década morando em Brasília, eu me eduquei muito mais. Hoje, me julgo ser um pouco melhor do que era neste quesito trânsito. Ainda tenho o que aprender. Afinal, cada instante é decisivo quando se dirige. Aliás, o tempo é o deus e o diabo das estradas. Que aprendemos a respeitá-lo, pois a morte é como um relâmpago: só precisa de um segundo para beijar a nossa face.
 

Um comentário:

Camila Maia disse...

SIm, mais, mais, vivo numa selva de pedra... Carros são máquinas assassinas e sinto que envelheço ao volante de tanto estresse. Mais gentileza, mais, mais