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domingo, 30 de dezembro de 2012

Quebra-tudo!




 

Foto - Alexandra Martins
MUITO PRAZER // BIA MEDEIROS

SÉRGIO MAGGIO


Há 20 anos, Brasília ficou mais contemporânea com a criação de um grupo de inquietos artistas, que pensava, de maneira lúdica, a relação entre o ser humano e as novas tecnologias. Surgia aí Corpos Informáticos, coletivo performático liderado por uma carioca, estudada na França e vinda para Brasília a fim de fazer e ensinar arte na Universidade de Brasília. Inventiva, Bia Medeiros desenvolve um trabalho questionador, que já passou por diversas fases. A última transformou “carcaças de kombi” em suporte poético para o que chama de composição urbana. Depois de circular por Brasília, Natal e Salvador, as Kombundas foram “plantadas” em território da UnB. Provocou então o maior fuzuê, com um inusitado pedido de remoção pelo Departamento de Estradas de Rodagens (DER), que viu naqueles objetos artísticos um risco para o cotidiano dos motoristas. A questão é de ponto de vista. Do lado de quem cria, as carcaças não são carcaças e o “perigo” é apenas o de se transportar para o revolucionário e subjetivo universo da arte.


Como você chegou em Brasília?
Sou carioca. Com 27 anos fui para Paris. Lá, fiz o mestrado, o doutorado e dois filhos. Levei oito anos para cumprir esse percurso e também para cansar enormemente dos franceses, da França, do frio... Ainda gosto muito de queijos e bons chás. Quando voltei ao Brasil, o Rio de Janeiro já não era o mesmo. Havia muita violência e recebi um convite de Brasília. Vim, gostei, comprei uma casa em Pirenópolis para aguentar o tranco e criar os meus meninos em contato com a natureza. Cheguei aqui em 1990. Em 1992, criei o Corpos Informáticos e meu corpo se fez parte, arte. Estou por aqui, por enquanto, satisfeita, artista e fuleira.

A pesquisa que baliza o Corpos Informáticos está sustentada na relação homem/máquina, corpos/novas tecnologias. Ao longo de duas décadas de trabalho, como é esse outro corpo que surge dessa interação?
Diversos caminhos são e foram traçados nesse percurso: a web-arte, videoarte, composições urbanas (de lambes a kombis plantadas na L4 Norte, passando por balanço na rodoviária, em 1996), performances, fotografias... Trata-se de pensar a relação do corpo com as onipresentes tecnologias. Pensar e apresentar no espaço urbano: composições urbanas.

Uma das últimas performances do grupo, Kombunda, chegou ao espaço do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), numa noite memorável, e foi também para as ruas de Salvador. A arte do Corpos Informáticos dialoga com muitos públicos?
O trabalho do Corpos Informáticos dialoga com todos os públicos. A performance Kombunda foi também para Natal (RN) no evento BodeArte 2012, onde andou de jangada. Em Salvador, ela também esteve em um barco na praia do Porto da Barra. Por vezes, com essa e outras performances arrancamos sorrisos, gargalhadas, mas também indignação, interrogação e tudo isso é excelente.



Você esperava essa reação do poder público de retirar as “carcaças de kombis” do espaço público?
Não, não esperávamos visto que tínhamos o “ok” da Universidade de Brasília e que as kombis se encontram em terreno dessa universidade. Foi uma surpresa, um susto, mas também um pulo do gato, digamos. Pois, com a notificação do DER, conseguimos muito espaço na mídia. Uma das reportagens termina mais ou menos assim: “Como ficará a L4 Norte sem uma de suas paisagens mais bonitas?” Detalhe: não são “carcaças de kombis”. São obras de arte compostas de carcaças de kombi, devidamente tratadas para uma grande durabilidade, pintadas, desenhadas. Essas contém poesias (vale a pena ver de perto), mas, sobretudo, contém, como parte da obra, árvores plantadas em seus bojos.

Há quantas anda essa pendenga?
O DER está estudando novamente a notificação e mesmo a possibilidade delas serem mantidas e reconhecidas como monumento artístico, com direito a placa oficial e tudo.

A Universidade de Brasília é seu abrigo de criação?
Nosso trabalho é feito com o apoio da UnB e do CNPq. Por vezes, tivemos apoio da Secretaria de Cultura do DF, entre outros. Não diria que a UnB é abrigo, mas, sim, a sede.

Como anda a arte feita na UnB? Está mais acomodada ou mais livre?
Se você olhar qualquer prêmio em artes no Brasil e, lá houver a presença brasiliense, pode estar certo que 90% dos artistas são daqui, ou mesmo que ora moram em outras cidades, mas moraram aqui, passaram pelo Instituto de Artes da UnB.

Brasília é uma cidade que recebe bem as performances de rua?
Sim, há pouca hostilidade, há interesse.

Ainda existe loucura nos vãos livres das superquadras?
Depende do que você compreende por loucura. Acredito que a arte se infiltra “nos vãos livres das superquadras”. Mas loucura, para nós, são os fumadores de craque tomando tudo. Outro dia, notei que há um ponto na SQN 206, frente para a 207, onde só há mato: um foco de venda e consumo de droga. Socorro! Loucura!

Você é uma artista inquieta, sem rótulos e em constante ebulição. No bem comportado universo dos editais, ainda há espaço para essa geração que pode tudo, até fazer o bundalelê, na Esplanada?
Até o presente momento, estou respondendo a esta entrevista como Corpos Informáticos (Adauto Soares, Bia Medeiros, Camila Soato, Diego Azambuja, Jackson Marinho, Luara Learth, Maria Eugênia Matricardi, Mariana Brites, Márcio Mota, Mateus Costa e Kamila Cidreira). O Corpos Informáticos é inquieto, sem rótulos e em constante ebulição. Eu, Bia Medeiros, só boto fogo de vez em quando, por que, em geral, ele, o Corpos, queima sozinho. São 11 cabeças com 11 corpos, 22, muitos, muitos membros: explosão!




Falando no bundalelê, Rita Lee diz que perdeu um patrocínio depois que mostrou a bunda no show da Esplanada. Por que o século 21 está tão careta?
Há coisas que não dá mesmo para entender: pensa o povo ficar chocado porque alguém Colocou, em uma exposição, uma foto de alguém pelado fazendo performance em 1983! Pois tem uma foto minha, Bia Medeiros, desse jeitinho: performance Poulet Rôti, Galerie Roch, Paris, 1983. A foto foi censurada em um catálogo nosso de 2008!

Uma novíssima geração de artistas de Brasília passa por sua sala de aula. Qual a importância dessa sua experiência como balizadora da formação intelectual dessa juventude?
Na sala de aula, vale a experiência como artista, mas também como produtora, coordenadora, curadora, membro de júri, coordenadora da pós-graduação, ex-presidente da Associação de Pesquisadores em Artes Plásticas (Anpap). Na sala de aula, tudo flui. Os bons alunos carregam o melhor, os outros reclamam que a professora é chata e exigente. Pensando a pedagogia, outro dia, e tentando reconceituar exatamente o que é a pedagogia, pude verificar que termos melhores existem para dizer não só pedagogia, mas muitas das palavras que usamos. Então “pedagogia” nada mais é do que secreções e contaminações. Corpos Informáticos sugere trocar o termo “pedagogia” pelo termo “secreções”: Alguém secreta e se contamina com aqueles que também secretam e se contaminam,. Estes últimos são chamados “alunos”. Mas esse termo também não convém. “Aluno” quer dizer ad-luminum, isto é “sem luz”.

Uma parte da sua formação foi na França. O Brasil que cresce economicamente tem oferecido uma melhor educação formal?
Creio que sim, a educação busca uma melhora. Quanto ao Brasil crescer economicamente, me pergunto se é verdade.

Em suas turmas, os alunos de arte já chegam sabendo quem foi Duchamp?
Na graduação, quando a garotada entra, muitos só sabem citar Picasso e Van Gogh. É preciso saber que fazer arte não é só fazer arte. É preciso muito estudo em história da arte, pesquisa em arte contemporânea, leituras filosóficas. É preciso ler os poetas, olhar as nuvens, se dar um tempo e pensar o mundo. É preciso tagarelar mas também cavucar, encontrar e se perder.

Como você, uma artista sensível, se relaciona com a Brasília/poder?
Já dei diversas consultorias para os ministérios, fui cinco anos representante junto à Capes, MEC,
fui suplente na cadeira de Arte Digital no MinC. É relevante poder estar junto de conselhos superiores para poder botar a arte, a performance e a fuleragem na mesa, mas tem que ter uma superpaciência para a lerdeza dos trâmites burocráticos.



 

3 comentários:

Tássia Motta disse...

Caramba, como eu faço para ver esta loucura santaaaaaaaaaaa. Quero Muito

bia medeiros disse...

na L4 norte estão as kombis
para ver a última composição urbana do Corpos Informáticos é só alugar um helicóptero e passear por cima da L4 norte na altura do ibama.
valeu Sérgio!

Sérgio Maggio disse...

Uua, eu qyero muito isto em 2013. Axé!