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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Feliz 100 anos de vida!

Foto/Divulgação

Sérgio Maggio

Minha mãe tem 85 anos. Está vivendo a vida como nunca. Faz hidroginástica, tem amigos, alimenta romances platônicos, administra a aposentadoria, cuida de descaminhados, ajuda aflitos, arruma-se para as festas. É uma bênção! Quando chegar a hora de sua morte, ela torce para que seja rápida a passagem. De preferência, adoraria que fosse dormindo. Sem ficar presa à cama. Espero que a vida continue sorrindo assim para ela. Eu daqui, de coração doido de saudade, fico em êxtase de poder ligar para Salvador e ouvir a sua voz cheia de força. 

Estamos vivendo mais, nós brasileiros, e isso precisa ser festejado à altura. Recentemente, experimentamos a iminente morte de algumas personalidades centenárias. Dercy Gonçalves e Oscar Niemeyer, ambos ativos e lúcidos até pouco antes da despedida. Nos meses que antecederam à passagem dos dois, não houve como não se deparar com indelicadezas virtuais. Algumas pessoas pareciam estranhar o fato de eles ainda desejarem a vida aos cento e poucos anos. As piadas davam a entender que já tinham passado da hora. A longevidade, com lucidez e o mínimo de saúde, é motivo de glórias, jamais de vergonha alheia. Dona Canô está aí cheia de energia aos 105 anos. Quero mais tempo pra ela desde que a sua qualidade de ser humano esteja mantida.

Talvez isso reflita o fato de o Brasil não respeitar tantos os seus velhos como deveria. Ainda ouvimos histórias lamentáveis de pessoas que maltratam os seus velhos em casa. Abandonam, batem, gritam com eles, impacientam-se com a perda de memória, não querem mais saber as suas opiniões. Tratam-os como trastes, algo que perdeu o uso, o brilho e a utilidade. 

É tão bom ter avós vivos. É tão divino olhar para esses avós e admirá-los por uma vida inteira, uma estrada. Saber que só estamos aqui e agora porque eles existem, amaram-se e seguiram os seus sonhos, encontros, desencontros, vitórias e fracassos.

Durante a morte de Niemeyer, ouvi uma história tão bacana de um jovem autor e diretor da cidade, Flávio Nardelli, da Cia. de Comédia de 4 é Melhor. Ele e o Luis Felippe Garcia escreveram um espetáculo, ainda inédito, e batizado de O Sentimetro Humano", no qual os dois discutem o ser e estar em Brasília. Um dos personagens, Alter Niegoyer, é nitadamente inspirado no arquiteto. Ficaram eufóricos com a ideia e resolveram ir ao Rio, mais precisamente no escritório de Niemeyer em Copacabana,  

  (FLÁVIO NARDELLI) - Chegamos ali às 8h da manhã e ele (com 100 anos completos) já estava trabalhando. Ao contrário do que tinham nos dito, ele não sabia da nossa presença. Olhou com uma cara esquisita para os parceiros dele, do tipo “que porra é essa???”. Explicamos que porra era aquela e ele disse aos seus, meio contrariado: “Tenho que receber os garotos, né? tenho que receber”. Nos mandou voltar às 17h porque ele tinha um monte o que trabalhar. 

Os dois voltaram no horário prometido, foram recebidos, gastaram muito saliva para falar do projeto, um peça existencialista, já que eram nascidos e criados em Brasília e tinham um pouco de Niemeyer na alma. Queriam que Niemeyer traçasse o croquis do cenário. Foi então que o arquitero interrompeu:

  (NIEMEYER) - Vocês colocaram aí nessa peça que a gente errou no projeto? Que a periferia ficou esquecida?

 O cenário ficou pra depois e não foi traçado... Mas não importa, desse pequeno “Dia com Niemeyer”, Flávio e Luis Felippe confirmaram alguns dos valores que marcaram a personalidade do mestre.

 (FLÁVIO NARDELLI) - Solidariedade (com os jovens garotos), energia e vontade pra trabalhar (11 horas por dia aos 100 anos), humildade (assumir seus erros) e o comunismo e preocupação com os desfavorecidos.

        

Um comentário:

Sarita Mendez disse...

Obrigada pelo texto lindo e revelador. Bateu em mim e repenso agora na minha relação com minha mãe, por vezes impaciente e á base do grito. Amo minha mãe, me perdoe minha mãe por minha alma ser pequena em relação a sua grandiosa passagem em inha vida. Obrigado, Sérgio Maggio

Sarita Mendez