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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Ellen Oléria é a nossa cura


Sérgio Maggio //  Foto: Diego Bresani 

Um amigo estava numa agência bancária do Plano Piloto, quando começou um rebuliço. De uma hora para outra, as pessoas sacaram os seus celulares e começaram um corre-corre para fotografar Ellen Oléria. A euforia foi tão grande que as pessoas abandonaram a fila para tietar a voz que está parando o país com interpretações de suspender a respiração do espectador. Esse sucesso de Ellen Oléria é uma glória para todos que acompanham a carreira dessa artista excepcional desde os meados dos anos 2000, quando ela apontou como a provável sucessora de Cássia Eller no quesito “acontecimento nacional”.

É também uma oportunidade para pensarmos, nós que habitamos o DF, sobre como temos tratado os nossos artistas. Esse amigo que me contou o episódio do êxtase bancário fez a seguinte indagação: “Quantas pessoas ali de fato conheciam Ellen Oléria antes de ela despontar no certame da TV Globo?” Não precisa fazer uma enquete para descobrir a resposta. Basta lembrar alguns recentes shows de Ellen Oléria no DF. Sim, a cantora de Ceilândia tinha um público cativo e acima da média. Mas, em alguns locais, enfrentou cadeiras vazias, mesmo em apresentações com entrada franca.

Uma parte do público brasiliense faz vista grossa à produção cultural da cidade. Pisa aqui, mas olha para cima, em direção às fronteiras, ao que vem do Rio e de São Paulo. O teatro, também território de Ellen Oléria, é sintoma dessa espécie de “síndrome da corte”. Se vem um espetáculo com algum artista de novela para o palco da Sala Villa-Lobos, é quase matemático que haverá a venda de desconfortáveis cadeiras extras. Pode ser o que for. Montagens puramente comerciais ou as mais trabalhadas artisticamente. Não importa. Se tem algum famoso, as fila dobram, enquanto os espetáculos locais contam os seus espectadores pingados. Muitas dessas peças brasilienses, quando viajam pelo Brasil, ganham destaque em festivais e na mídia, mas aqui tiveram temporadas de plateia contada no dedo. Será que é preciso fazer sucesso lá fora para ganhar o aval de parte do público do DF?

Não se trata aqui de culpar essa parcela do público que ignora o que é feito na cidade e ainda repete a ultrapassada cantilena de que Brasília é um cemitério cultural. Mas de refletir sobre os porquês desse desdém, desse desinteresse, dessa apatia e dessa falta de curiosidade. Ora, todos sabem que é por meio da cultura que se estabelecem relações sólidas de pertencimento. Para eu gostar profundamente de um lugar, é preciso que eu admire e me orgulhe de seus artistas e de suas manifestações culturais. Porque a arte nos afeta e nos leva para um outro lugar que não é este do noticiário diário nem o dos problemas domésticos. É o da descoberta do “eu”, das nossas possibilidades e potencialidades adormecidas.

Não à toa, estamos todos apaixonados por Ellen Oléria. Ela é Brasil, é mistura de culturas e de influências. É Plano Piloto e periferia. É sonho e luta. Ellen é o time de futebol que não temos na Série A. É também ensinamento para deixarmos de lado esse complexo de colônia cultural. A cura, quem sabe, para essa perversa “síndrome da corte.”

10 comentários:

Anônimo disse...

Sensacionalllllllllll... Povo esnobe de merda este do Plano Piloto. Ellen pode apresentar um outro caminho pra eles

Marcinha Ritz

Paulo Viggu disse...

Mérito do canto canto oleriano. A cantora passa pelo modelo The Voice - coisa que nem me interessa muito - mas entra em um texto muito bem articulado por você. Ellen é guerreira da boa voz, do timbre forte, da música de um Brasil cheio de templos levantados em torno de vários gêneros desgastados. Uma voz de Brasília, passando pela Globo, atingindo corações. Viva Ellen Oléria!

Nina Puglia disse...

Nossa, você tirou todas as palavras da minha boca quando fala do comportamento do público brasiliense. E que sensibilidade ao apresentar uma suposta causa.
Excelente, de verdade.

Marta Macedo disse...

Conheço Ellen Oléria algum tempo: cantando no CCBB, abrindo shows de estrelas de MPB, e onde posso vou vê-la cantar. Ela é de fato a melhor coisa que surgiu no cenário musical de Brasília, na música, desde Cassia Eller. Me comove, me instiga, me arrepia. Que bom que hoje a grande mídia teve oportunidade de conhecê-la. Quem não viu e ouviu antes estava perdendo o que há de melhor! Torço sempre por ela aqui ou em qualquer lugar do Brasil, com ou sem mídia! Parabéns pelo artigo!

Anônimo disse...

Já que é pra valorizar o trampo de quem produz em Bsb bora dar créditos das imagens? Diego Bresani! http://estudiocalifornia.com.br/

abração!!!

Sérgio Maggio disse...

Obrigado pela dica do crédito

Marcos Pinheiro disse...

Belo texto, Serginho, de grande inteligência e sensibilidade!

Tenho orgulho em dizer que já no final de 2007, se não me engano, nós começamos a tocar músicas da Ellen Oléria na Rádio Cultura FM, tais como "Mandala" e "Senzala (Feira da Ceilândia)". E logo ela virou uma habitué na programação normal da emissora, onde permanece até hoje com outras tantas canções.

Fico muito feliz pelo sucesso nacional que ela começa a desfrutar agora, mesmo que 5 anos depois. Trata-se de uma artista de inegável talento e carisma. Apenas lamento que esse "burburinho brasiliense" em torno dela só aconteça por conta de um programa de TV e não pelo que Ellen demonstrou tantas vezes nos palcos locais.

Mas não é a primeira e, ao que parece, não será a última vez que isso acontece. O público médio em Brasília não consome a cultura local. Prefere engolir o que vem da grande mídia. Uma pena...

Sérgio Maggio disse...

Marquinhos, belo retato e a Rádio Cultura faz a direrença no DF...

Fabi disse...

Acompanho a Ellen desde os tempos da Funfarra, e sempre que posso, vou onde ela está.
Gostei do teu texto, pq infelizmente a realidade é essa dos estereótipos, o público brasiliense comprou a de que a cidade é um cemitério cultural e torce o nariz pra o que é local, mas estão perdendo.
Eu fui em um monte de shows da Ellen de graça, tinha quase toda semana, agora esse povo que nunca tinha ido vai querer conhecer pq a globo aprovou, vão ter que pagar. (Eu vou pagar, pq vale a pena, mas vou poder sempre dizer, eu já sabia).

Prof. Rosa disse...

Muito bem Diego. A Cesar o que e de Cesar. A FOTO E LINDA.