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quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Dona Canõ, sacerdotisa de fé



Dona Canô
alma de passarinho,  
espírito de vento, 
fluxo de rio
Dona Canô por Aninha Franco


RGIO MAGGIO


Quando saiu do hospital, em Salvador, na última sexta-feira, lúcida e terna como sempre, Dona Canô, vaidosa do jeito que era, pediu um vestidinho novo e branco, do jeito que gostava, da cor da paz e de Nosso Senhor do Bonfim e Oxalá, orixá senhor do mundo. A viagem para Santo Amaro da Purificação era mesmo para aguardar a chegada da morte, que veio mansinha, na manhã do dia de Natal, como a matriarca sempre cortejou. Morreu aos 105 anos (completados em 16 de setembro) em sua casa aconchegante, templo de uma vida simples e cercada de fé. Foi lá que cultivou essa imagem de nobreza e sabedoria.
— Queria saber porque é que fica essa agonia comigo. Eu não sou nada, nunca fui nada! Apenas fiquei conhecida por causa de meus dois filhos, que nunca se esqueceram de onde vieram nem da mãe que têm, dizia Dona Canô.
Há ainda quem pense que Dona Canô era apenas o ventre abençoado, que gerou dois dos artistas mais significativos da cultural brasileira no século 20. Engano. Havia naquela natureza afável de mulher uma líder comunitária, dona de opiniões, que extrapolou a condição de mãe de Caetano Veloso e de Maria Bethânia. Personalidade forte de uma cidade central do estado da Bahia, era capaz de abençoar, sem julgamentos, Antonio Carlos Magalhães (ACM) e Lula. Os políticos costumavam ir a Santo Amaro para o beija-mão e, em troca, ouviam conselhos, como se estivessem diante de uma sacerdotisa. No dia do aniversário de 105 anos, comemorado intimamente com os filhos e a amiga Regina Casé, recebeu do ex-presidente Lula flores e uma mensagem.
— À querida dona Canô, minha sincera e emocionada homenagem pelo seu 105º aniversário. E parabéns por essa longa vida que ilumina uma família tão especial, honra Santo Amaro da Purificação e orgulha a Bahia e o Brasil.

Puxão de orelhas

Lula era um dos sacerdotes dessa rainha coroada em vida, na luta, sobretudo para cuidar das seis crias com inabaláveis princípios éticos e uma educação esmerada. A longevidade não tinha segredos, mas era recheada de sabedorias. Uma delas: evitar os perrengues desnecessários e não fazer tempestade em copo d’água. Foi esse recado que deu ao filho Caetano, em 2009, quando ele declarou o voto para presidente a Marina Silva. Caetano disse:
— Não posso deixar de votar nela. É por demais forte, simbolicamente, para eu não me abalar. Marina é Lula e Obama ao mesmo tempo. Ela é meio preta, é cabocla, é inteligente como o Obama, não é analfabeta como o Lula, que não sabe falar, é cafona falando, grosseiro. Ela fala bem.
Na hora que soube da declaração, Dona Canô rebateu:
— Lula não merece isso. Quero muito bem a ele. Foi uma ofensa sem necessidade. Caetano não tinha que dizer aquilo. Vota em Lula se quiser, não precisa ofender nem procurar confusão.
O puxão de orelhas que esquentou os bastidores pré-eleitorais terminou com um telefonema derramado de Lula.
— Não fique chateada, preocupada, porque gosto muito da senhora e gosto do Caetano também. Está tudo bem, essas coisas acontecem.    
Uma pessoa no seu juízo perfeito não iria a Santo Amaro sem ao menos passar pela porta do sobrado azul e branco, localizado no número 179 da Avenida Vianna Bandeira (Centro). Seria uma heresia. Era como ir a Salvador sem visitar a Igreja do Bonfim ou a Roma e não passear pelos arredores do Vaticano. Sempre com as portas abertas e o sorriso largo, essa senhora era como se fosse uma entidade sincrética, que reunia a fé nos santos católicos e a admiração na força dos orixás do candomblé. Estava ali, sempre de sorriso aberto para receber os forasteiros, às vezes, com suco de pitanga ou com uma mesa posta de café, com fruta-pão, inhame e aipim cozidos.

Embaixatriz cultural

A humildade era uma das muitas qualidades da mulher que não se deslumbrou com a fama e o dinheiro dos filhos. O sucesso deles a fez conhecer o mundo, não só ao sair de Santo Amaro, mas ao trazer para a cidade um romaria de fãs. Amante da música e da cultura popular, era a defensora das raízes culturais da cidade, realizando e organizando ternos de reis, novenas e participando fortemente da festa da padroeira de Santo Amaro, quando a cidade e o sobrado lotavam de convidados. Era também entusiasta do samba de roda, comadre de dona Edith do Prato (morta em 2009), e ajudou a divulgá-lo como pôde, uma espécie de embaixatriz. Coincidência ou não, o samba de roda do Recôncavo foi sagrado Patrimônio Imaterial da Humanidade na primeira gestão de Lula, tendo como ministro Gilberto Gil.
Adorava cantar na missa e uma das novenas organizadas por ela foi registrada em CD, com a participação de Maria Bethânia e Caetano. Articulada, aproveitava o bom trânsito com os políticos para pedir a restauração da Igreja de Nossa Senhora da Purificação, a construção do Teatro Dona Canô ou a despoluição do Rio Subaé. Era uma mulher com atividades filantrópicas. As boas relações com o governo da Bahia lhe rendiam doações para ajudar os mais carentes. Sempre que algum governador, deputado ou presidente aparecia no dia 16 de setembro, ela repetia a ladainha.
— Meu sonho é comemorar meu próximo aniversário nesta igreja matriz toda reformada.
Claudionor Viana Teles Velloso — ou simplesmente Dona Canô — constituiu respeito justamente pela sinceridade com que conduziu a vida, registrada no livro Canô Velloso, lembranças do saber viver, do historiador Antônio Guerreiro de Freitas e Arthur Assis Gonçalves da Silva. Lá está a vida gloriosa e sem brigas ao lado de seu Zeca (eles se casaram em 1931 e ela ficou viúva em 1983).
Dona Canô seguiu a vida com fé, rezas e velas, pedindo sempre pela saúde dela e dos outros. Só queria viver, até quando se sentisse útil e potente. Esse talvez fosse o maior segredo de mais de um século de existência.
— Nada me perturba. O que me perturba é não estar boa, é não ter saúde, todo o desasossego.
 

VOZ DE MÃE:

SEU ZECA

“A gente se conheceu na rua, lembro dele passando por mim e tudo foi diferente a partir dali”

CONSELHO

“Paciência. Porque a pessoa impaciente e nervosa, que briga por tudo, não pode viver bem”
 
CENTENÁRIO

 
“Isso é uma graça de Deus. Chego aos 100 anos com muita satisfação e alegria, e poder reunir meus amigos, filhos e todos é a minha festa”

RELIGIOSIDADE

“A fé é tão importante que eu tô viva, não é? Cheguei a essa idade porque acredito em Deus e sempre vivi com a minha família, com pessoas do meu lado, com casa cheia. Esse é o segredo”

FILHOS

“Todos para mim são iguais. Maria Bethânia é incrível. Onde ela estiver me telefona. Caetano é diferente, não tem tempo. Não para. Chegam aqui perguntando por ele, mas eu nem sei direito por onde ele anda, o que faz”

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Um comentário:

Cássio de Malta disse...

Dona Canô merece todas as nossas honras, todas as reverências. Era um orixá vivo. Axé, que elas nos ilumine