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domingo, 9 de dezembro de 2012

Ausência: poema táctil de um ator



Sérgio Maggio

Em pouco mais de 50 minutos, uma imensa solidão se estabelece no palco. Em cena, um homem, alguns ratos e um peixe evocam o sentido de sobrevivência em um mundo de extremos. Em vez de palavras, é o corpo dramático, pulsante e agigantado do ator que narra uma história que cala e inquieta àqueles que ocupam as poltronas confortáveis e compartilham o luxo do ar-condicionado. Luis Melo, um dos grandes intérpretes do teatro da palavra, na montagem Ausência, quase dança. Vocábulos, só alguns, ditos à meia-voz e propagando por um tubo. 
Em cartaz até o dia 16 de dezembro, no Teatro da Caixa Cultural de Brasília, Ausência põe em discussão o caos, o fim, os limites da humanidade, a partir da alegoria do fim do mundo. É sobretudo um poema sobre os afetos, ali, postos em xeque. O homem que se dizima em seu próprio cotidiano de escombros. 
Um ponto central da dramaturgia apresenta um personagem que tem sede extrema diante da escassez de água. No limite da sobrevivência, ele é colocado no dilema de beber ou não beber a água do aquário de peixe, metáfora de seu maior afeto. Essa situação dialética por si movimenta a dramaturgia da companhia franco-brasileira Dou à Deux, que constrói, no palco, uma partitura de movimentos, sons e imagens que fazem dessa montagem uma experiência sensorial, táctil, para o espectador.
A imagem de Luis Melo abrindo a boca sedento em busca de uma gota de água ficará impressa na memória como um registro memorial deste espetáculo, pérola da dramaturgia do aqui e agora de 2012. Assim como, o jantar do rato ao som de uma ária de Maria Callas e de agudos estridentes do animal, leva a plateia a se dividir entre o choque e o riso, num perfeito exemplar do distanciamento brechtiano. 
Um, porém, talvez para a excessiva presença da trilha sonora, quase física, quase um personagem que aparece além do devido, enquanto a luz segue pontuado, entre penumbras e revelações, o trabalho magistral de Luis Mello.       

Um comentário:

Anônimo disse...

Uau quero ver. Tem ingresso à venda? Não ouvir falar. Foi mal divulgado Gero Mathias