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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O teatro que apazigua


Sérgio Maggio

As pessoas andam por um fio ou melhor no fio da navalha.  Acabo de ficar diante de um senhor de cabelos brancos em fúria. Ele estava acompanhado de uma senhora, quase sem voz, que, de quando em quando, balbuciava alguma coisa em apoio ao marido incontrolado. Os olhos dele respigavam ódio. Tentaram cruzar com os meus, em busca de uma certa cumplicidade, mas eu os reneguei. Não quis ser solidário. Ele rodopiava de ira em torno de si. O motivo? Aparentemente, uma vaga pra estacionar reservada para alguém. Um vigia, que cumpria ordens para manter o cobiçado espaço lacrado por cones, ouviu os piores impropérios. Ao furacão humano, ele retrucava, com uma voz delicadíssima:

- Senhor, não fale comigo neste tom... Eu estou te respeitando...

Mas o senhor revoltado não queria ouvi-lo. Foi implacável nos adjetivos que beiraram o insulto. Havia uma tensão, preciso confessar. O vigia era negro e, por alguns momentos, houve, pelo menos para mim, o risco iminente de ofensas criminosas. O que não ocorreu para alívio imediato.

- Com você, eu não converso mais. Chame o seu supervisor!

O supervisor, branco, por sinal, veio calmamente. O senhor baixou o tom de voz quando o viu e reclamou civilizadamente como um cidadão em seu estado normal. O vigia ficou de longe observando, tinha um olhar dos relegados, dos que falharam em conduzir a crise. Penso que as explicações do supervisor branco foram as mesmas, já que a vaga continuou guardada pelos cones. O senhor ouviu tudo, balançou negativamente a cabeça por muitas vezes e, quando foi embora, ignorou o vigia.

Depois, vi este mesmo senhor incontrolável, com sua esposa que balbuciava palavras, no teatro, sentado para assistir ao espetáculo Esta criança, divinamente conduzido por Renata Sorrah e Cia. Brasileira de Teatro. Ele estava calmo e, antes dos artistas pisarem no palco, testemunhou um escândalo de um espectador indignado com o cenário da peça, que avançava em perspectiva sobre o palco e se projetava em parte da plateia direita. Implacável, esse cidadão amplificou as críticas mais ferinas sobre a escolha dos artistas em fazer o que chamou de "devaneio"

- Vou quebrar o meu pescoço. Isto é um caso de polícia, de denúncia, de mau gosto!

O homem do teatro gritava, ia pra frente e pra trás da plateia e dava o seu show de intolerância à parte, enquanto aquele senhor de cabelos brancos assistia a tudo, agora placidamente. O que passava pela cabeça dele?, pensei em vão. Foi preciso acomodar o outro cidadão brigão em uma poltrona, enquanto eu respirava fundo para me livrar desse clima antiteatral, de falta de concentração e desequilíbrio energético.

O espetáculo avançou narrando a violência das relações interpessoais, no caso familiares. Acabou a peça e saímos impactados com a crueza e a força dessa montagem. Busquei encontrar esses dois homens brigões nessa despedida teatral e eles pareciam tão fragilizados, havia uma outra feição neles, estavam mais perto do humano... Torci para que chegassem em casa sem encontrar nenhuma contrariedade pela frente. Que fosse voando para um horizonte azul, daqueles que nos banha de paz. Eles pareciam melhores assim, apaziguados pelo teatro.

Um comentário:

Sérgio Maggio disse...
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