Languages

sábado, 24 de novembro de 2012

Memórias em trânsito, Marina Lima





Sérgio Maggio

O livro Maneira de Ser, de Marina Lima, estava em minhas mãos. Parecia que tive acesso privilegiado a um diário confiado por uma amiga. A forma visual da obra tem esse apelo. Um caderno, um bloco de anotações, de registro de vida. Á medida que folheava, vinha à minha cabeça a voz de Marina recitando o poema do irmão Antonio Cícero

Guardar

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso, melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que de um pássaro sem voos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

 Marina Lima é uma artista de méritos já inscritos na história da MúsicaPOPBrasileira. Ela ajudou a dar uma identidade à música pop, com suas investidas sonoras, com suas parceiras inquietas (Suba, ALvin L) e com as experimentações de batidas eletrônicas. Confesso que acho paralisante, quase uma camisa de força, esse estigma da voz perdida que tentam aprisionar a trajetória sempre coerente e crescente dessa artista. Marina nunca quis ser uma intérprete, daquelas capazes de criar versões únicas e definitivas para algumas canções. A sua "ambição" estética sempre foi a da criação de âmbitos musicais inéditos e experimentais atrelados a cada disco. O livro circunda essa procura. Basta ouvir a sua discografia para entender claramente esse caminho. Basta ouvir Pierrot do Brasil, na minha opinião um dos discos mais importantes da história do MPOPB, para se ter ali uma das viradas, ou cumes, da carreira de artista pop. 

O livro responde às expectativas de leitores, fãs ou não. Como um registro à meia voz, quase num confessionário, Marina põe a memória para circular, para girar em torno de sua postura de artista e mulher-cidadã. Fala de perdas, a do irmão Beto, a mais comovente, a dos pais, e de ganhos, as muitas parcerias da vida. O livro, eu não vou detalhá-lo porque vale a pena tê-lo na cabeceira e abri-lo de tempos em tempos, é um belo convite para colocar as nossas reminiscências também em trânsito. 

Veio à minha mente meu irmão, Sisi (também morto), trazendo em primeira mão o Disco 1 de Marina. Eu tinha uns 12 anos e fiquei apaixonado com o gritinho que ela dava em Solidão, de Dolores Duran. "A solidão vai acabar comigoooo". Aquele agudo era lindo e ficou na minha cabeça de menino, aliás está até hoje ecoando, cheio de frescor, essa Marina, trilha sonora de tantos sonhos, pesadelos, tristezas, alegrias, coração aos pulos, coraçao trancado... saudades de meu irmão Sisi, que me apresentou e me educou musicalmente. 

Memórias em movimento, saudades, vida... Marina! 


      

Um comentário:

Anônimo disse...

Sim, eu resolvi me ausentar para ocultar a minha dor, fugi, menti... Uma das canções mais lindas de minha vida. Amo MARINA LIMA

Alethea Barros de Sá