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segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A bunda genial de Rita Lee



Sérgio Maggio 

Uma amiga, muito querida, amanheceu chateada porque Rita Lee mostrou a bunda na Esplanada. Ela não gostou, pareceu tudo gratuito e inadequado. Ela quis repartir a sua indignação comigo. Parei, pensei e achei tudo tão natural e coerente em se tratando de Rita Lee. Na verdade, quando parei para pensar, achei o máximo que Rita Lee tenha mostrado a bunda logo na Esplanada dos Ministérios, palco lícito de todos os tipos de protesto contra os incontáveis desagravos ao cidadão brasileiro, de leis orquestradas por interesses escusos e toda forma hedionda de corrupção. Mas o melhor de tudo isso não foi a bunda dessa artista que tanto nos orgulha. Foi mesmo eu ter respeitado profundamente a opinião adversa de minha amiga, mesmo discordando profundamente dela.

Como é bom aprender a respeitar o ponto de vista do outro. E essa é uma vitória que nem sei ao certo se conquistei. Uma coisa eu tenho certeza: cada vez mais eu tenho uma certa preguiça de gente que adora vencer o ponto de vista do outro. Em vez do debater ideias, essa gente estabelece um duelo, a busca pelo xeque-mate, fatal, que encerra o jogo e as possibilidades. 
Respeitar o ponto de vista do outro não é calar-se para manter uma falsa harmonia. É simplesmente tentar se colocar no lugar do outro, da forma como ele entende e se comporta diante daquele fato, no caso, a bunda de Rita Lee.

 O mundo está estranho. Tem um monte de gente que conversa com o outro como se quisesse arrebanhar, catequizar e doutrinar. Às vezes, eles não são políticos nem religiosos, mas agem sob a forma dogmática e autoritária, que comanda a natureza dos filiados, dos militantes, dos que acreditam só em um livro religioso ou um regimento interno de um partido. 

A escuta é fundamental, talvez, seja a minha grande descoberta aos 40, o meu maior exercício. Quero opinar menos, ouvir mais, escutar coisas estranhas, esquisitas, possibilidades não pensadas para caminhar nessa estranha missão de viver. Que Rita Lee, nos guarde...

Um comentário:

Antonio Calos disse...

Belo texto. Já ouviu falar no CVV? Seu texto é condizente com a filosofia do CVV.