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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Eu voto em Kiara Kennedy




Sérgio Maggio


Eu não vou votar na próxima eleição porque transferi meu título de eleitor para Brasília. Aqui, todo mundo sabe, não há prefeito. É Distrito Federal. Mas não deixo de alguma forma de passar os meus olhos por aqueles que sonham em chegar ao poder, alguns por uma ideologia política, outros muitos por oportunismo empreguista. "Já somos uma democracia mais madura", afirma uma respeitada colunista política de tevê. Não sei ao certo. O horário eleitoral é uma síntese disso. Estou aqui no oitavo andar de um hotel no coração de São Paulo e acompanho o desfile de candidatos a vereadores. Eles não têm tempo de falar absolutamente nada. Mal dizem o nome, o número e o prefeito que apoiam. Impossível escolher um pelo palanque eletrônico. Talvez, por isso, a bizarrice seja uma saída para chamar a atenção.  

Da janela ouço sirenes apavoradas de uma ambulância quando a Mulher Pera aparece querendo adocicar os olhos dos eleitores mais carentes. Corro para ver o que acontece lá embaixo. Há uma flor vermelha que brota de uma jardineira suspensa. Através dela, vejo uma cidade gritar por socorro. Volto correndo para a cama e aparece o candidato que tem como codinome... dos Projetos. Mas ele não tem tempo de revelar nada, absolutamente nada sobre seu planos. Não tem energia de vencedor. Deve guardar os projetos na gaveta.

Tem ainda aquele sem fim de candidatos com palavras prontas. "Por uma educação, por uma saúde, por segurança". Eles se repetem numa cantinela sem fim. Poucos têm brilho nos olhos. No meio do caminho, aparece uma alma que inova: "pela proteção dos animais de rua". Acho que este poderá ter alguma chance. E os ativistas profissionais. Aqueles que põem na boca os chavões "companheiros", "comunidade", "a direita", "a esquerda". Hoje, se eu fosse votar jamais escolheria em que tem o politiquês como língua. 

O horário acaba e ninguém fica de verdade. Desço para fazer um lanche. Um pão francês com churrasco, queijo e vinagrete num daqueles bares charmosos das esquinas paulitanas. Lá, encontro, morta de fome, a travesti Kiara Kennedy, coberta por um edredon rosa para amaciar o frio. Ela migrou do interior de São Paulo para ganhar a vida como estrela da noite paulista, teve os pertences roubados e agora mora pelos arredores da Avenida Paulista. Ofereço um lanche para Kiara e a conversa fluiu inteligente, bem-humorada, doce e verdadeira. Taí, se Kiara Kennedy fosse candidata eu votaria nela. Ele me ganhou. Tem brilho na alma.       

       

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