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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Os anjos de Rita


Sérgio Maggio

No dia em que Rita chegou da Paraíba, Brasília estava tão seca quanto hoje, dia 10 de setembro de 2012. Ela desceu na Rodoferroviária e a baforada de calor foi sentida nas primeiras inspiradas. Sem avisar, uma sede imensa tomou conta de seu corpo. Bebeu um litro d´água como nunca tinha ingerido antes. Seu destino: o Setor Hoteleiro Sul, onde participaria de um seminário interno da empresa. 

Rumou de táxi para o hotel e pediu ao motorista que atravesse o Eixo Monumental, onde as árvores tortas, algumas deslumbrantemente floridas, outras despudoradamente nuas encheram os seus olhos. Quase que não percebeu os palácios à margem. Fixou-se, sim, na terra de grama morta. O que lhe provocou uma melancolia imensa. Daquelas que cortam o coração.

Foi desse jeito que Rita entrou na Praça de Alimentação de um shopping, depois de rapidamente largar as coisas no quarto do hotel, com vista para um horizonte azul e encoberto de poeira. Ali, sentou-se à mesa para saborear uma salada de camarões, que certamente vieram de um mar muito distante. À medida em que comia, Rita cruzou os olhos com a figura pálida de um jovem comprimido em si. Ele parecia querer desaparecer no próprio corpo. Encolhidos, os músculos estavam todos tensionados para dentro de si.

Pelos próximos cinco arrastados minutos, Rita não sentiu mais sabor de nada. Cada mastigada marcava segundo a segundo a agonia em carne e osso daquela criatura, que parecia materializar a melancolia que ela sentira ao pisar na cidade e deparar-se com o clima árido. Em nenhum momento, ele cruzou seus olhos com os dela. Mas, de tempos em tempos, as púpilas dele giravam e apontavam para o canto esquerdo. Curiosa, Rita acompanhou um desses movimentos. Viu apenas o muro de proteção que separava a Praça de Alimentação do abismo em direção ao térreo. Se arrepiou, parecia capaz de entender perfeitamente o que se passava na cabeça dele. Na hora, lembrou de uma oração infantil, que sua mãe a ensinara. 

- Santo anjo do senhor, meu zeloso guardador...

Antes de prosseguir a oração, o rapaz, num rompante, voou da mesa em velocidade para o canto esquerdo. Rita despencou-se em seguida. Saltou, como um animal, o ar em diagonal, que a mão triscou o sapato do rapaz. Ele se desequilibrou-se e caiu embriago de choro para o lado. Rita jogou-se sobre ele, como uma mãe que aninha o filho. O agarrou com firmeza e balbuciou ao ouvido dele.       

- Santo anjo do senhor, meu zeloso guardador...

Chorando, ambos, abraçaram-se. O rapaz não parou de chorar, enquanto Rita seguiu forte na oração.

- Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador. Se a ti me confiou a piedade Divina, Sempre me rege, me guarde, me governe, me ilumine. 

Um comentário:

Anônimo disse...

Linda história pela vida
Santana