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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Crônica para o fim da seca


Sérgio Maggio

O inferno pode ser bem aqui, no Planalto Central, a alguns metros do poder, num calor de tirar a razão.  Naquela noite de sábado, Celinha e Ricardo não aguentavam mais olhar um para a cara do outro. Havia um irritação entre os dois que não era exatamente o indicativo de uma separação. Uma incompatilidade física, orgânica, como um sintoma, talvez. A verdade é que os dois estavam com o "miolo mole". As ideias pareciam pastosas, como chocolate marginal esquecido na bolsa. A equação era: Umidade de deserto + Calor de deserto + Ar de deserto = Casal à míngua, esticado na sala de estar e sem vontade de dizer um "ai" sequer.

A sensação "que diabos eu fiz da minha vida"  piorou tragicamente com a entrada de uma nuvens de insetos vampiros. Eles mordiam a carne sem piedade. Das coxas gostosas de Celinha ao joelho duro de Ricrdo. Desesperados, os dois batiam as mãos em pescoços, tornozelos, pés e batatas das pernas como se fossem percussionistas de banda de axé music, enquanto os algozes voadores se sentiam num rodízio cinco estrelas. Celinha levantou-se visivelmente descontrolada e pegou a chave do carro. Ricardo entendeu, numa cumplicidade típica dos enamorados, que era hora de abandonar o lar.

Correram, sem trocar uma palavra, pelas vias de Brasília, sem destino aparente, calados, mas intrinsicamente conectados. Pararam num supermercado 24 horas, sim, eles existem em Brasília e têm ar-condicionado central. Lá, compraram sorvete, frutas vermelhas congeladas, um aparelho mix triturador, dois ventiladores, uma piscina inflável, um dispotivo elétrico que mata insetos e seguiram para a fila qui-lo-mé-tri-ca. A cidade inteira estava no supermercado. Nos carrinhos e cestas, sorvetes, sucos, sacos de gelo, cervejas, espumantes. Os dois trocaram olhares de tédio, largaram as compras, seguiram para o setor de jardinagem, avistaram duas cadeiras de descanso para piscinas. Elas estavam meio enconbertas de plantas, como uma moita. Deitaram e dormiram feitos adolescentes num camping. Nem viram a chuva desabar com gosto. No dia seguinte, foram vistos felizes tomando milk-shake de frutas vermelhas e conversando como bons amantes numa piscina de plástico, em tarde chuvosa e fria.       



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