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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Moqueca de lobo-guará



Sérgio Maggio

Hoje, estou aqui diante do livro A festa do riso - Os Melhores do Mundo, que tive a honra de escrever para a coleção Brasilienses. Mergulhei numa história de uma Brasília que simultaneamente vivi e não vivi. Saído banhado desse processo, me sinto mais brasiliense após folhear cada página. E olha que antes, quando alguém me dizia que eu era um "baiano-brasiliense", eu, buscando um humor nato, dizia: "Só depois de experimentar uma moqueca de lobo-guará. Até lá, sou um baiano que habita feliz em Brasília."   

 Tenho 11 anos e 11 dias de Brasília. Sou, portanto, um menino moleque baiano que corre e descobre outros cantos da cidade monumental. Há muito tempo não me deslumbro mais com a beleza dos palácios e nem a proximidade do poder. Isso, graças aos meus orixás baianos, durou o tempo do bebê abrir os olhos e ficar diante da paisagem diferente de tudo. Desde o começo de tudo, o que me encantou na capital do país foi a possibilidade dos encontros. E foram nas esquinas imaginárias, nos cruzamentos cheios de vida que me fiz feliz diante de uma gente nascida aqui ou vinda de toda parte do mundo.

Esta crônica, uma espécie de atestado ao meu pertecimento brasiliense, é uma forma de dizer que hoje, mais do que os outros dias, me sinto entrelaçado por essa cidade. Aqui, completei ciclos interrompidos, convivi comigo mesmo, arranquei peles e unhas, e beijei a boca da solidão apaixonadamente. Dormimos, eu e ela, muitas noites juntos e foram "camas" de gozos esplêndidos. 

Tenho que falar o quão é bom cair do ninho natal em terra de umidade equivalente ao deserto. Fiquei de pele grossa com os reverses. Fui à caça com a sabedoria de um bicho faminto e o respeito pelos predadores naturais. Ganhei força no entendimento em estar na roda viva do animal adulto. Brasília me fez assumir escolhas. Retornei para a arena do teatro, que me fez renascer ainda menino na Bahia. Voltei a sentir o frio na espinha de uma estreia, de sentir o cheiro do palco e das cortinas velhas. de sonhar em grupo aqui. 

Agora, folheando as páginas deste livro, sinto à boca o gosto da lúdica e delirante (afinal, o bichinho está em extinção), carne do lobo-guará molhada de dendê e camarão seco. Minha saborosa moqueca de lobo-guará.   


Em tempo: o lançamento é no dia 21 de agosto (terça-feira), às 19h, na Praça Central do ParkShopping, com a presença do grupo Os Melhores do Mundo.




          

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