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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Cidade dos teatros

Sérgio Maggio

Estou hospedado numa rua onde habitam muitos teatros. Alguns seculares que resistiram bravamente às crises da cidade. Daqui da janela, vejo os letreiros garbosos que se acendem e seduzem os espectadores. A sensação é de que querem nos engolir maciamente, nos levar à sua garganta úmida de desejos. À porta dessas casas de sonhos, as pessoas fazem filas, formam pequenas multidões e respiram um tanto ofegantes e curiosas antes de ficarem diante do palco-altar.

Não posso negar que fico doidinho em estar entre teatros. Perco a compostura e quero entrar em todos. Dos mais caros aos econômicos, pode ser na fila Z ou no "paraíso de pé". A minha relação com o teatro, falo o edifício, é parecida com o dos beatos católicos ao adentrar num templo nunca visto. É uma emoção de fé e de esperança. Venho de um país onde muitos teatros não resistiram à ganância dos homens e serviram a outras destinações. Aqui, onde estou, o teatro é respeitado como um templo. Entro em cada um deles e refaço meus votos de devoto à arte.

Agora, acabo de passar três horas em um deles. Estava no último anel, na galeria do pueblo, lotada de jovens, crianças e gente de todas as idades que não tiravam os olhos do palco, onde bailarinos riscavam o espaço ao som da filarmônica da cidade. Três horas de absoluta fraternidade, no qual as pessoas se ligavam entre sim pela magia da arte, que se suspendia do palco ao teto espetaculoso. 

Tinha acabado de chegar da rua, onde numa arena, atores contavam a história dos imigrantes que fugiram da guerra e doaram os braços fortes para construir este país, esta cidade. Ali, repleto de emoção estética, eu estrangeiro, pedi permissão para evocar a frase de pertencimento, dita com tanta afetividade pelo povo argentina: 

"Mi Buenos Aires, querida!" 

          

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