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domingo, 22 de julho de 2012

Remacumba



Sérgio Maggio

Estou em estado de Remacumba. 

De limpar dejetos emocionais largados com o tempo nos cantos das almas: 

Amores estancados ao meio, amizades natimortas, frustrações juvenis, assombros humanos, quebras familiares. "Sentimentos-coisas" que deixei virar esse amontoando de entulho afetivo. 

O estado de Remacumba consiste em colher esses dejetos emocionais e despachá-los no universo, para que sejam consumidos e neutralizados em sua energia residual e negativa. A sensação de leveza é o que caracteriza essa fase de limpeza. 

Fiquei mais magro quando eliminei essas gosmas emocionais. Admitir que não há lugar mais dentro de mim para reter relações sorumbáticas é o que move inicialmente esse estado de Remacumba. 

No baile fantasioso da vida, arranquei as máscaras de algumas falsas lembranças e vi o rosto do pesadelo, cheio de dor e de sofrimento. 

Reter reminiscências doloridas de amores não realizados (não só os sexuais, mas os amores-amigos) era como alimentar diariamente um incurável parasita que suga e reduz a energia vital que, por natureza, precisa escoar como água num córrego. Algumas das minhas mais caras lembranças eram monstros mimetizados por criaturas doces do passado. 

No estado de Remacumba, botei toda esse bolor num tacho de barro e larguei na primeira encruzilhada. Não quero mais pensar em quem fechou, e por que fechou, a porta no momento de tantas expectativas e sonhos. Não quero mais aninhar no meu coração quem rompeu com o sentido de seguir junto, quem violou o código mútuo do estar lado a lado. 

O estado de Remacumba é dolorido, requer coragem. Pede para inspecionarmos, com acuidade, o dejeto e nos interrogarmos sobre aquela matéria natimorta. Toda vez em que uma relação afetiva se rompe há uma culpa mútua, por mais que cada um queira se agarrar às muletas da vitimização. Somos sempre culpados e inocentes. Há sempre erros e acertos. 

O estado de Remacumba é um "não" ao tapinha nas costas daquele que já sentou em sua mesa, à manutenção da hipocrisia, à acomodação das relações. É dizer "não" à gestação da mágoa, à transformação do ódio, ao culto do ressentimento. 

O estado de Remacumba é uma busca de paz, de positivação, de reconstrução da vida. É a abertura da casa para a festa para os bons e velhos amigos e apresentá-los aos outros e novos convidados que chegam. É tirar na lista aqueles obrigatórios, aquela reserva de cotas, que você, sem perceber, só chamava por puro praxe ou franca covardia.

Estou fazendo uma farofa com esses resíduos de amor, do que  um dia foi uma relação frutífera e leal, sem cair na armadilha dramática do "onde foi que eu errei". 

E só o estado de Remacumba pode um dia nos redimir.

Axé             

2 comentários:

Anônimo disse...

Caralho Sergio, fiquei bem tocado com o tetxo e muito, mas muitoi tentado a fazer a "remacunba"!
Se é que já não estava fazendo e apenas não tinha me dado saber...
bj,
Luciano Lima

Anônimo disse...

Cláudia diz:

Gostei muito! Vamos tod@s 'remacumbar'.