Languages

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Homem desejoso de si

Sérgio Maggio

       "A vida fica urgente quando avista, mesmo de longe, a morte" 

      Quem me conta isso é um homem sonhador, que viveu sem grandes pretensões de envelhecer, mas encurva-se ao tempo ano a ano. Falo de um homem que conheço há pouco, mas tenho a ideia do que ele é capaz. De dez em dez anos, costuma pôr a vida pelo avesso, quebrar estruturas aparentemente firmes como se fossem finas porcelanas lançadas ao chão. Aciona um terremoto cujo epicentro está localizado num coração que se nega a bater automaticamente. De tempos em tempos, troca de profissão, tritura incontáveis expectativas familiares, muda de identidade e se joga num mundo cada vez mais próximo de seus desejos.
Se botasse no papel o dinheiro que poderia ter ganho se continuasse nos trilhos, talvez ficasse até deprimido. Mas, quando pensa que viveu até agora movido por uma flecha do desejo lançada em direção ao infinito, respira aliviado. Do homem que falo, não cabem arrependimentos, nem grandes tempos de lamentos. Conto de um homem que, como um guerreiro orixá, avança de peito aberto cada vez que a batalha recomeça. Um homem que arromba portas quando o caminho se fecha e busca sempre uma forma de circular a força que habita em si. Não há arrogância nele se a prerrogativa é o crescimento íntimo, mesmo que a aparente escolha soe aos olhos alheios como “estranha” ou “excêntrica”.
O homem de que lhe falo é extremamente humano e dual. Ele carrega em si luz e sombra, mentiras e verdades, vidas e mortes. A sua arte é equilibrar-se entre o positivo e negativo. É seguir sem pôr os pés no lodoçal dos sentimentos humanos, mas com a probabilidade constante de se estatelar sobre a lama. Um homem que caminha por abismos e sem confortos, guiado por uma forte orientação ética, posta sempre em xeque diante da vida cotidiana, mas alimentada diariamente pelo espírito imaginativo. Um homem que balança, enverga e, muitas vezes, não cai.
 Converso com este homem desde que o entendo como um ser que me inspira. É diante dele que tento me entender no meio desse caminho torto que é viver. Há pouco tomamos uma rodada de vinho, rimos e choramos. Comemos o mesmo pão molhado no azeite forte de tantas pimentas. Depois, ouvimos e dançamos tango antes da despedida. Está perto, muito próximo, dele se recompor de mais uma dor. Nosso encontro foi só para amenizar a vida que mais uma vez cinde ao meio por força de sua natureza desejosa de ser ela mesma.

Nenhum comentário: