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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Crônicas de Memória Alterada - V



O teatro que me alfabetizou
Sérgio Maggio

Passei o dia de hoje mexendo em minha biblioteca. Em 11 anos de Brasília, acumulei tantos livros, sobretudo, de teatro. São obras bárbaras, algumas raras, encontradas em sebo. Amo teatro, amo ler sobre teatro, amor fazer teatro, amo ver teatro. Tudo isso mexe com minha cabeça e eu mergulho num turbilhão de reminiscências.

Eu nunca fui ao teatro quando era criança. Não fazia parte do cotidiano de minha família ir ao teatro. Na minha infância, a experiência máxima que tive com a representação teatral foi durante a alfabetização em que bonecos marionetes ensinavam o som das sílabas (A Casinha Feliz). Aquilo era tão forte que me marcou profundamente. Sou capaz de me lembrar de trechos dessas aulas. Depois, a fantasia e a imaginação que me contagiaram como menino vieram, sobretudo, da tevê.
Até os 15 anos, o teatro era ausência, era nada, era essa lembrança das sílabas apreendidas. Até que numa disciplina de Língua e Literatura Nacional (LLN, lembro-me da sigla), a professora de português Cecília, com fama estudantil e injusta de carrasca, na Escola Técnica Federal da Bahia, indicava a turma ao desafio que mudou minha vida de adolescente: transformar uma crônica numa peça de teatro. A escolhida: Cãomício no Calçadão, de José Carlos Oliveira, da série maravilhosa Para Gostar de Ler. Era 1982 e eu me atirei naquele projeto tão intuitivamente que, neste instante de lembranças, sinto a dimensão e o poder dessa experiência.

Entrei no núcleo de dramaturgia, sem saber nem o que era dramaturgia. Começamos a recriar tudo, transpor a crônica para  o universo das fábricas, trazendo a discussão do homem sendo substituído pela máquina, tão absolutamente anos 1980. Ao nosso lado, tinha o então estudante, hoje grande ator baiano, Paulo Paiva, a nos apontar os caminhos da construção cênica: texto, direção, ensaios, personagens, cenários, luz e figurinos. Foi incrível ver aquilo se erguer, numa magia incrível. Descobri o teatro fazendo teatro. Havia ainda o ranço da censura e a gente experimentou um terrível corte. Um trecho foi censurado. Nele, uma personagem popular, ao comprar alimentos de segunda num supermercado de terceira, alusão à Cesta do Povo (projeto do governo Antonio Carlos Magalhães), dizia:

Mulher -- Assim não dá? Tudo vai acabar em ACM
TODOS - ACM?
Mulher -- ACM -  Acabaremos Comendo Merda...
Estreamos numa manhã em que precedia uma aula de educação física. Eu fazia ainda um personagem, um escroto patrão que decidia pela demissão dos operários. Coloquei roupas da educação física na mala, objeto de cena, para dar mais volume. Na hora em que entrei em cena, teatro cheio, a mala abriu-se do nada, revelando calção, cueca, meias ao chão. No improviso do segundo, sem pensar, gritei:

        -- Meus documentossssssssssssss
O teatro veio abaixo e ali senti um poder indescritível. Uma experiência física, psicológica, espiritual, uma adrenalina, um vigor, que agora, 30 anos depois, me entrego incondicionalmente.

Evóe, axé, ouro, ió, que os deuses do teatro me deem tempo para ler todos esses livros 

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