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segunda-feira, 2 de julho de 2012

Crônicas de Memória Alterada IV


Coração em bandeirolas


Nasce o sol a dois de julho



Brilha mais que no primeiro


É sinal que neste dia

Até o sol, até o sol é brasileiro...

Nunca mais, nunca mais o despotismo
Regerá, regerá nossas ações

Sérgio Maggio

Eu tenho a Bahia dentro de mim. Não é uma saudade doida; é um estado de vida. Não é a vontade de me reunir com os desgarrados da terra natal para costurar os sentimentos num manto de lembranças retalhadas. A Bahia que há em mim me mantém firme com os pés afundados neste solo generoso do Centro-Oeste. É essa Bahia que me permite viver em outras paisagens sem virar o pescoço para trás. A Bahia que há em mim me fornece o pertencimento, onde eu construí o cenário e desenhei a minha história original. A Bahia em mim é como a educação na primeira infância. Não se perde jamais. 

Quando o dia 2 de julho chega, não importa o ano, enfeito o meu coração de bandeirolas azul, vermelha e branca para esperar o cortejo do Caboclo e da Cabocla, símbolos míticos da resistência, e da mistura do povo baiano, contra o Brasil Imperial. Desde menino, sempre achei estranho a gente da Baha comemorar duas independências. Por que vibramos mais com o 2 de Julho do que com o 7 de setembro? Inquieto, fiz essa pergunta à professora Estela, uma querida lembrança do ensino primário

-- Porque houve a resistência. E quando há resistência, há um povo de coragem.

Essa resposta me fez admirar perfeitamente a festa cívica. O povo na rua para a passagem dos carros do Caboclo e da Cabocla, que ficam guardados o ano todo numa capela histórica do bairro da Lapinha. Movido naturalmente pela fé sincrética, o povo baiano, lógico, tratou logo de transformá-los em santos adoradores, entidades capazes de interceder por uma vida melhor. 

Lembro-me de muitas vezes ver senhoras e senhores, com a boca balbuciando orações, atravessarem o cortejo para colocar flores no carro, tocar nos pés ou nas mãos das imagens em tamanho real. Havia ali até um intrigante dragrão, estilo São Jorge. Era engraçado e comovente.

A festa de 2 de julho traz à minha cabeça a imagem de Silvinho, um menino lindo que nem estava aí para os murmúrios sobre o jeito feminino de ser. Silvinho tinha um sonho: queria ser a baliza, madrinha da banda, do tradicional ICEIA (Instituto Central de Educação Isaías Alves). Mas foi impedido sequer de mencionar o desejo de vida. Fomos desfilar uma vez e ele, durante o cortejo, fazia evoluções completamente largas e diagonais para o padrão "marcha soldado cabeça de papel", sem que o responsável pela ordem do desfile percebesse as deliciosas indisciplinas. 

Sem sucesso na tentativa de alcançar o posto supremo, Silvinho treinava as meninas para o cargo tão sonhado. Era um escândalo de bom as suas evoluções. Quanta ignorância, não deixá-lo ocupar a legítima frente do desfile. Há tempos, abençoados pelos doces deuses baianos, muitos Silvinhos ocupam o cargo com o respeito dos Caboclos.


No meu tempo de menino, não lembro do uso do desfile como plataforma política, como ocorre hoje. Via padres e pais de santos misturados lado a lado. Os povos pretos e misturados seguindo com bandeirinhas da Bahia e do Brasil o fim do cortejo. ACM sempre estava por lá, desde os tempos da ditadura até a democracia, quando caminhou como um peixe que desagua da água doce para a salgada. Ele passava como se fosse uma entidade, um daqueles caboclos, um orixá todo de branco e coberto de guias no pescoço. Sempre seguido de um séquito de figurantes, que cabia num set de filmagem. Parecia um personagem de ficção. Uma vez, já adolescente, alguns vaiaram ACM, muitos aplaudiram ACM. Eu fiquei admirado. Para bem ou para o mal, ACM é uma dessas lembranças de um 2 de Julho mítico que evoco agora sem autocensura nem rejeições ideológicas. Depois, testemunhei Gilberto Gil numa época que ele quis ser prefeito de Salvador ou vereador do Partido Verde, não sei ao certo. Era tão luminosa a sua presença. 
Tudo isso lampeja em mim como fogos de artifícios que saúdam a minha Bahia, o meu templo de vida e de fé.

Axé 

       

2 comentários:

Socorro disse...

Lindo por demais...

Anônimo disse...

Lindo, meu irmão. Me emocionei.
Bela