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domingo, 1 de julho de 2012

Ângela Maria, voz de menina



Atravessando seis décadas com uma performance impecável, Ângela Maria comemora 83 anos de casas lotadas, álbum recém-lançado e plateia renovada
                                                                 Sérgio Maggio
                                                     Irlam Rocha Lima

Há poses que só uma dama sabe fazer. Quando fica em pé diante da câmera fotográfica, Ângela Maria estica a coluna vertebral, prende a respiração, gira os braços à la Carmem Miranda e abre um sorriso irresistível. Por um instante, parece que não está mais no salão de luxuoso hotel à beira do lago. É possível imaginá-la no palco, correndo a voz, como uma menina traquina, a espichar as notas musicais, no tempo e no espaço, e pronunciar, a perder de vista, a palavra “Babalu”, título de uma de suas interpretações imortais.
— Quer saber a verdade? Não aguento mais cantar Babalu.
Por onde Ângela Maria vai é aquela agonia. Todo mundo quer ouvir Babalu. Se puder, com repeteco no bis. Até nesta entrevista, havia um fio de esperança de ouvir uma palinha, à capela, daquelas de arrepiar a espinha.
— Foi uma coisa engraçada essa canção. Estava em Copacabana quando encontrei, por acaso, o pianista Waldir Calmon, que estava gravando um disco de 33 rotações. Ali, ele propôs que eu desse uma canjinha em duas músicas, uma delas era Babalu, que eu conhecia de ouvido. Trouxeram a letra em espanhol e comecei a ensaiar, com aquele passeio vocal todo. Quando disse vamos gravar, o maestro riu. Já estava tudo registrado de primeira .
 Babalu é só um capítulo na história da cantora exímia, dona de 115 discos gravados e 60 milhões vendidos. Uma voz que caminhou pelas letras e melodias de mestres da MPB — de Herivelto Martins a Caetano Veloso, de Ary Barroso a Chico Buarque.
— Não esqueçam Tom e Vinicius. Meu último disco, Eu voltei, tem Roberto Carlos num repertório maravilhoso, que foi elogiado pela crítica nacional. Quero gravar um álbum só com canções de Chico Buarque, Caetano e Gil.
Exigente, Ângela Maria sempre ouve, com cautela, as composições antes de gravá-las. Gosta de pesquisar a discografia dos antigos e pescar pérolas esquecidas, deixando o ouvinte surpreso e inebriado com a regravação. Alguns dos sucessos tiveram tanta identificação que é quase impossível dissociá-los da voz dela. Gente humilde, de Chico Buarque, é um desses temas “tão Ângela Maria”.
— Tomei como um hino meu. Essa música fala muito mais de mim, da minha origem no subúrbio do Rio. A minha mãe tinha uma casa avarandada, onde cuidava das plantas e dos bichinhos…
Mulher à frente de seu tempo, a Sapoti (quem a apelidou com o nome do fruto doce e apetitoso foi o presidente Getúlio Vargas) enfrentou de cabeça erguida uma sociedade conservadora, que sempre esticou o olho para vigiar as suas relações afetivas e escolhas pessoais. Antes de optar pela carreira artística, ficou diante da reprovação da família de princípios evangélicos, que não reconhecia o ofício da filha.
— Diziam que, naquele meio, as pessoas não prestavam. Não liguei para isso. Se eles não prestam, dizia, presto eu. Hoje, ser cantora é muito fácil. Aliás, nem precisa saber mais cantar. Descobri que existe uma máquina que corrige a desafinação. A pessoa entra, no estúdio, sem saber nada e sai cantando.
A vida de Ângela Maria dá um livro. De tão forte, inspirou o samba-enredo da Rosa de Ouro, que venceu o carnaval de 1994. A cantora também é mote de documentário em produção pelo Canal Brasil. Hoje, no palco onde pisa, é reverenciada por várias gerações. Os antigos aparecem, mas os meninos e as meninas marcam presença bonita na plateia. Vinda da era de ouro do rádio, na qual foi rainha em 1954 e ajudou a construir, com o dinheiro arrecado da campanha, um hospital para artistas, ela atravessou o tempo. Chegou à era dos downloads, da pirataria, da fragmentação do mercado fonográfico, com o cetro e a coroa em mãos.
— É uma guerra fria. E eu estou nesta guerra.
Seus súditos, não há dúvida alguma para ela, zelam por sua memória diariamente. É um público que tem se renovado diante de uma voz que não tem idade.
— A prova, meus queridos, é que estou aqui, com 60 anos de carreira e 83 de idade, que, aliás, não aparento, com a imprensa aqui, interessada e carinhosa comigo. Por onde vou, sou cercada de respeito. Sabe de uma coisa? Eu sou de todas as épocas. Sou do agora, dos 1950, 1960, 1970, 1980, 1990, 2000. 


Três
amigos


Ângela Maria tem acompanhado a novíssima geração de intérpretes. Gosta, em especial, de duas Paulas: a country Fernandes e a Lima. Ao contrário do passado, quando o estilo Sapoti influenciou diversas cantoras, não consegue ver nessa safra nenhuma identificação com sua forma de cantar (“São autênticas”). Quando viajava o Brasil de cabo a rabo para fazer programas de rádio, tinha o séquito de fãs. Uma delas, que ia ao estúdio desde os 5 anos, transformaria-se num mito da canção.
—  Elis Regina sempre disse que começou a carreira me imitando. Nunca gravamos juntas, mas chegamos a cantar num programa de televisão. 
Dessa era do rádio, hoje, ela faz tríade com Agnaldo Timóteo e Cauby Peixoto, dois companheiros de vida, com os quais gravou dois discos. Cauby esteve com ela, na última quarta-feira, para receber honraria do Congresso Nacional. Agnaldo foi o seu motorista quando chegou ao Rio, vindo de Belo Horizonte, incentivado pela intérprete. Na capital, quando teve a primeira chance de mostrar o vozeirão, com um empurrãozinho dela, foi contratado imediatamente pela gravadora Odeon.
— Depois, ele me levou de carro em casa e, ao sair, me entregou a chave. Na hora, perguntei por que me devolvia. Ele falou: “Agora, somos colegas”, ri.     

Sérgio Maggio e Ângela Maria




  


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