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segunda-feira, 30 de julho de 2012

A tentação do acarajé




 Sérgio Maggio

 Não é uma boa ideia ir de dieta pra Bahia. Principalmente se o regime implica em redução drástica de carboidratos, gorduras, frituras e doces. Por mais discreto que você queira ser com esse absurdo jejum, parece que a Cidade da Bahia descobre rapidinho o que se guardava em segredo. De repente, o ser humano que aspira à magreza sai pelas ruas e todas as pessoas resolvem comer um acarajé ao mesmo tempo e agora. O rapaz da farmácia, o motorista de táxi, a senhora que aguarda o ônibus, a menina que volta da escola, o preto velho que toma a cachacinha no bar e até o cachoro vira-lata, magrinho e cheio de perebas. Todos, sem exceção, levavam à boca o quitute preferido dos orixás. 

Toda essa comilança grupal até parecia um síntoma de delírio coletivo. Mas era real. O cheiro do azeite no tacho, o som do bolinho fritando, o balé das mãos da baiana cortando e recheando esse manjar de Iansã, o barulhinho do papel cor de rosa (ou verde). Tudo chegava aos olhos do cidadão que renunciou ao prazer dessa comida como se os sentidos tivessem alterados. Uma lente zoom abria-se nos olhos sendo capaz de até perceber a textura da capa crocante do acarajé fritadinho. Um amplificador potente se instalava nos ouvidos revelando o tinlitar das bolinhas do azeite quente explodindo na fervura.

Nessa hora, nem tente respirar fundo para pedir forças a Nossa Senhora Protetora dos Magros Emergentes. É como evocar um sedutor demônio, que espalha, como incenso, o perfume do dendê no tacho quente pelas narinas do infeliz. O cheiro vai direto para o cérebro e o sujeito lança ao espaço qualquer fé. O bouquet do dendê é como um lisérgico capaz de fazer o ser humano girar na roda, incorporando um trem doido e avançando, de joelhos e balançando os ombros, sobre o primeiro tabuleiro.

É tão forte que alimenta visões. De repente, todas as meninas baianas aparecem de turbantes brancos mercando os bolinhos de feijão, num balé coreográfico que acossa o ser humano em dieta. Como sereias, seduzem o incauto para as 1001 calorias de um acarajé digno de patrimônio cultural da humanidade.Cambaleando e com o juízo afetado, a presa fica sem defesa e pode a qualquer segundo morder o acarajé completo (vatapá, caruru, pimenta, camarão e salada), e o pior, acompanhado por uma Coca-Cola original geladinha.

A tarefa de atravessar as ruas de Salvador, fingindo que se caminha por uma via sem baianas pomposas e seus tabuleiros altares da gula, deveria entrar na mitologia. Poderia até ser uma atualização dos doze trabalhos de Hércules de tão complexa tarefa. 
E se o sujeito em questão desconfie que, na pia bastimal, após quase ser afogado pela água benta do padre, tenha sido colocada uma gota de azeite de dendê na fronte? 

Aí, neguinho, não tem dieta que segure o prazer de cair matando num bolinho frito no azeite. A felicidade é mesmo caminhar pelas ruas da Cidade da Bahia com a boca lambuzada de acarajé.    

Um comentário:

acarajés.com disse...

Excelente texto, Sérgio. Nos teletransportou para as ruas de Salvador, que tem sim cheiro de dendê e gosto de acarajé. Parabéns.