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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Delicadeza para acender a vida



Karina Rabinovitz e a Poesinha de caixinha: fogo de poemas


O livro-objeto Poesinha para caixinha revela a força dos versos curtos e cotidianos da escritora baiana Karina Rabinovitz

                                  Sérgio Maggio

Sexta-feira de sol coberto por nuvens em Salvador. Com boa vontade dava para descer do apartamento no bairro da Vitória e caminhar até o Porto da Barra. No entanto, a arte-educadora e poeta Karina Rabinovitz e a artista visual Silvana Rezende estão diante de uma mesa com caixinhas de fósforos vazias, metros de papel cartão e estilete. Trabalham para dar conta de pedidos que chegam por e-mail e pelas mensagens do Facebook. De diversos cantos do país, as pessoas encomendam poemas curtos, que foram materializados em forma de uma delicada sanfona de papel, guardada, como um relicário, dentro de uma caixinha de fósforos. Ao abri-la, o leitor é iluminado pela chama poética da autora.
“Se é pra viver com os pés no chão/Prefiro areia fofa de beira de praia” (em “Minhas nuvens”) ou “Um dia desses viro a mesa/ Viro eu mesma” (em “Desabafo”) são dois dos 44 poemas curtos que compõem a obra Poesinha pra caixinha (de fósforo), o terceiro “livro” de Karina Rabinovitz, que desenvolve um forte trabalho com jovens da periferia de Salvador. “Estou muito feliz com a recepção. Lançamos há quatro dias pelas redes sociais e já temos 160 pedidos para serem enviados pelo correio. A parceria com Silvana permitiu que a ideia virasse objeto concreto”, conta.
Foi a artista visual que apontou como fazer a caixinha, o uso do material, a dobradura, desenhou as cinco capas diferentes e detalhou o acabamento. O livrinho é todo feito à mão. Por dia, se elas mantiverem o ritmo, a produção chega a 15. Poesinha pra caixinha é materialidade de inspiração que corre o olhar de Karina diariamente. Ela não consegue mirar o cotidiano como se fosse um fenômeno repetitivo que circula alheio pelo tempo. A percepção é guiada como um imã, às vezes, para os detalhes, para o que parece torto na paisagem, como uma criança que atravessa à frente do seu carro equilibrando-se em uma sandália de tiras arrebentadas em um dos pés. Talvez venha dessa fonte pérolas como “Em todo enterro chove/Mesmo que não chova, chove” (em “Não tem jeito”) ou “Um lindo pisca-pisca enfeita a placa vende-se” (em “Natal”).
Karina começou a enxugar as poesias há 10 anos. Fazer versos cada vez mais curtinhos, não exatamente com as regras de um haikai, mas com a atmosfera dele. Colocá-los todos numa caixinha de fósforo foi quase natural. Juntos, o suporte e os poemas se integram numa delicadeza feminina que emociona na primeira abertura. “É para funcionar mesmo como um livro-objeto, então os 44 poemas foram feitos para estar ali, como a poesinha fogo e a poesinha luz, esse jogo de palavras que fiz para a caixinha de fósforos”, destaca.
Leitora-menina de Clarice Lispector, Karina cresceu impactada pelos poemas viscerais, que colocavam a escritora pelo avesso. O livro-caixinha traz uma homenagem explícita no poema Clarice: “Quando saio de mim por aí encontro o outro eu, e os outros eus, including clouds”. “Foram as minhas primeiras leituras. Não a conheci, mas gostava do jeito que ela vivia”, lembra Karina, que, ao lado de Silvana, financiou o projeto com 100% do dinheiro vindo do bolso.

POESINHA PRA CAIXINHA

Poemas de Karina Rabinovitz com arte de Silvana Rezende. R$ 14. Pedidos feitos pelo poesinha.caixinha@gmail.com. Detalhes no www.karinarabinovitz.blospot.com.

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