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quarta-feira, 13 de junho de 2012

Delicadeza de uma voz instrumento

Cristina Branco emocionou público brasiliense com fado embriagado de poesia

Gabriel Azevedo 

Sérgio Maggio


O fado de Cristina Branco não é triste. É dramático, mas não se aprisiona ao sentimento de fossa que marcou o gênero musical português, recentemente transformado em Patrimônio Imaterial da Humanidade. Ela, entre uma canção e outra, pontua a diferenciação em temas embriagados de poesia. A cada música, interpretada no palco do Teatro da Unip (913 Sul), o espectador é deslocado para uma esfera subjetiva de sentimentos. Os cantos de exílio, a solidão, os encontros febris e apaixonados alimentam os motes poéticos que saem da voz cristalina da cantora portuguesa, em turnê pela América do Sul (de São Paulo e Brasília, ela segue para Buenos Aires e Montevidéu).
De vestido de cor negra, no mesmo tom do trio acústico (formado de piano, contrabaixo e guitarra portuguesa), Cristina Branco se coloca no centro do palco par a par com o naipe instrumental. O respeito e a intimidade com os músicos chamam a atenção da plateia. Na metade do show, quando já havia interpretado oito músicas, deixa o tablado para que Ricardo Dias (piano e acordeão), Bernardo Couto (guitarra portuguesa) e Bernardo Moreira (contrabaixo) arranquem aplausos efusivos com performance jazzística. A expectativa era de que voltasse com outro figurino, mas foi delicadamente um gesto de valorização.
Dona de movimentos curtos, finos e, por vezes, quase imperceptíveis, Cristina Branco estimula a plateia a viajar pelo mundo melódico, poético e musical. “Em Berlim, em Paris ou em Brasília, o fado é sempre o fado”, pontua, desfilando canções nas quais as letras são tão valorizadas quanto os belíssimos arranjos. Conhecida no Brasil, sobretudo, com o irretocável CD Ulysses, do qual trouxe para o show brasiliense a irresistível Sete pedaços de vento, Cristina Branco une Europa e América do Sul ao aproximar o fado do tango, dois gêneros musicalmente distintos, mas repletos de proximidades, como a dramaticidade dos temas.
 Aplaudida com entusiasmo a cada canção, surpreendeu o público com uma versão sofisticada para Rosa, de Pixinguinha, deixando os espectadores inebriados e, ao mesmo tempo, esperançosos de que ela possa vir a dedicar um futuro trabalho à música brasileira. O fado, no entanto, forma o núcleo central dessa turnê, que abre espaço para uma canção-chave para os portugueses, Fado menor, no qual interpreta com a visceralidade exigida pelos clássicos. “Este é um fado triste”, brinca.
Entremeando as músicas com deliciosas histórias e referências aos poetas que a inspiram, sobretudo, os portugueses, Cristina Branco diz que há muitas histórias sobre a origem do fado, mas elege a preferida. “Gosto de pensar que o fado nasceu em Porto, naquela confusão de línguas, de marinheiros indo e vindo, e de uma prostituta que surge e canta o primeiro fado.” Nessas canções além-mar, Meu amor é marinheiro é uma das pérolas que saem da voz instrumento de Cristina Branco.

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