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segunda-feira, 18 de junho de 2012

Crônicas de uma Memória Alterada II

Orgulho Pardo


O populoso bairro da Liberdade


Leite Pab, Leite Pab! 

O coro ritmado de vozes de meninos de quando em quando irrompe as lembranças. Leite Pab era aquele saquinho pasteurizado que se vendia nas padarias. Era também o apelido que recebia aos sete ou oito anos de idade, não sei ao certo, numa óbvia associação à cor de pele. Era diferente por ser esbranquiçado que nem leite. Pelo menos ali, morando na Rua Pero Vaz, número 77, bairro da Liberdade, a maior concentração de negros por metros quadrados de Salvador, da Bahia, do Brasil.

- Querido, você sofreu bullyng!

 Diria quem lê essas palavras. Não! Apesar da evidente gritaria separatista. A palavra que encontraram para caracterizar as ações discriminatórias não cabe em mim, pelo menos nesse episódio. Não tenho trauma algum dessa memória. Ao contrário, parecia que aquele coro era um chamado para eu me aproximar.  Já me sentia, antes mesmo de ser apontado com tal, um menino diferente daquela comunidade. Queria entender por que não era uma pessoa de cor, como alguns se referiam aos negros naqueles preconceituosos anos 1970.

O coro era como se fosse um chamado. Do meu jeito, mesmo morando numa "imponente casa de varanda alta", que mais parecia um camarote, desci pra rua e me misturei com as brincadeiras de meninos. No início, não era fácil correr pelos becos e me perder num labirinto do bairro populoso. Mas foi, por esses caminhos que aos poucos fui manchado a tal cor branca. 

Certo dia, já adolescente, entendi melhor tudo isso quando tive acesso à certidão de nascimento. Estava lá escrito "pardo". Como assim "pardo"? Não me chamavam de Leite Pab? A aparente cor branca era então um invólucro para conter o sangue misturado, mestiço. Até então, parece que nunca tinha enxergado a beleza da pele curtida de meu pai, de minha tia Ruth e de toda a família paterna, vendida para mim  desde menino como torta e errática. Nunca tinha atiçado a coragem para desvendar a beleza daqueles que vinham do ramo pobre, "dos que não deram certo." 

-- Ah, seu avô Leôncio era um preto muito bonito, revelou minha vó Firmina.

A história me encheu de felicidade. Até hoje guardo como joia aquela conversa. Ali, era a pista para entender porque sempre foi empurrado para o convívio com os parentes maternos brancos, descendentes de latifundiários, escravocratas de engenhos de canas, ricos donos de terras e de valores morais rígidos. Não tive tempo, maturidade nem sabedoria para romper com essa aproximação imposta. Quando entendi tudo isso, parecia tarde demais. Estava olhando os mestiços de longe, com certa admiração, mais de longe. Eram diferentes. Bebiam, dançavam, amavam com mais facilidade, valorizam os prazeres, não tinham poses, nem máscaras. Sumiram aos poucos, sumiram todos, enquanto eu olhava à distância e borrava a minha identidade construída.

Tenho orgulho em ser pardo registrado em cartório. Devo ser um dos poucos no Brasil a cultivar esse sentimento. Ser pardo ao menos é uma negação à mentira da mistura, da mestiçagem. Hoje, ao ecoar aquele coro de meninos gritando:

Leite Pab, Leite Pab! 

Agora, o que me remete à memória é um amoroso canto de vida e de chamado.

Axé                              











             

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