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domingo, 10 de junho de 2012

Crônicas de uma memória alterada - I

Quando paquerei Brasília

Sérgio Maggio

  Foto: Portal UOL // Sonny Tumbelaka/AFP



Quando pisei em Brasília pela primeira vez, o meu pai anda tinha um fio de vida para se agarrar. Era julho de 1995, Não entrei, na cidade, pela porta da frente, a monumental, cheia de cartões-postais capazes de encher os olhos, e o visor da máquina fotográfica, de uma paisagem nunca vista e completamente distinta da velha Bahia que me criou.   
Quando pisei em Brasília pela primeira vez, aportei de mochila e colchonete numa Universidade de Brasília em ebulição, com conferência do então governador e ex-reitor, Cristovam Buarque, numa Concha Acústica de olhos de esperança. Era um encontro de estudantes de Comunicação que se espalhava pelo campus em oficinas, debates, apresentações artísticas, bate-papos inusitados e noites viradas em bares e festas. É claro que tinha "sexo, drogas e rock' n' roll", mas tudo na medida certa. Havia, sobretudo, a descoberta lúdica do encontro, num lugar completamente avesso à censura e à repressão.
Quando pisei em Brasília pela primeira vez, a UnB era como se fosse uma casa de vó, aonde a gente entrava e saía por muitas portas. Uma inspiração à juventude que, naquele momento histórico, acalentava à chegada de um Brasil que rompesse com aquele Brasil que morria como o meu pai. Agarrávamos a utopia do operário no poder, a do fim da injustiça social, a da ascensão dos miseráveis, a da busca de uma arte que emancipasse o outro. Estava ali absorto naquela energia de reconstrução mesmo sabendo que uma parte de mim morria num leito de um hospital. Durante todo tempo em que passei nessa Brasília, não quis conhecer a sua face  monumental e atrelada a todos os poderes. Não vi os Anjos da Catedral, nem os palácios do século 20. Não queria ver uma outra Brasília diferente daquela que amanhecia fazendo tai chi chuan e dormia às gargalhadas entre utopias e bobagens.   
Quando eu pisei em Brasília pela primeira vez, só sai para ir ao Estádio Mané Garrincha assistir ao jogo do Grêmio x Santos, do lado de um monte de adoráveis gaúchos fanáticos. Havia uma greve de caminhoneiros e voltamos gloriosos, depois de um frustrante empate em 1 x 1, empossados, como desbravadores, numa boleia de caminhão. Era noite e havia muitas luzes, quase ninguém à vista a vagar pelo breu.

-- Que cidade, deslumbrei-me num murmúrio. 

-- Moraria aqui, desejei levianamente.

Quando eu deixei Brasília pela primeira vez, parti completamente inebriado e encoberto de um bálsamo de vida que me fez acompanhar, com dignidade, a morte do meu pai, em março de 1996. Ficamos mais próximos, amigos, nos perdoamos, nos amamos com os olhos apaixonados de despedida. Um dia antes de partir, ele me disse:

-- Com você, eu não me preocupo. 

No dia seguinte, cheguei a tempo de vê-lo em seu último suspiro de vida, arrebatado para a Morte, que o levou acarinhando-o. Ali, compreendi que a Morte trata bem quem ama, com ardor a vida. E meu pai a amou febrilmente.

Quando eu voltei a Brasília pela segunda vez, já foi para pisar como cidadão na cidade, trazido pelo destino impensável, em julho de 2001. Não demorou muito para que eu conhecesse um místico:

-- Brasília é uma cidade que escolhe quem ela quer, para o bem e para o mal. Muita gente chega e muita gente vai embora. Só fica quem ela deseja pelo tempo em que ela deseja. 


Ouvi aquilo quieto, sem fazer juízo algum de valor. Na hora, só me lembrava daquela frase na boleia do caminhão.   

-- Moraria aqui.

Acho que ali, eu, estudante, paquerei Brasília descaradamente.