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domingo, 24 de junho de 2012

Crônicas de Memórias Alteradas III


São-João Xangô Menino 

SÉRGIO MAGGIO

Não é exagero nem delírio. Eu passei a gostar mais da festa de São-João quando me mudei para Brasília. Aqui, capital síntese de tantas culturas, o arraiá, montado com um zelo e um amor tão delicados, remexe com a minha memória, àquela que nasceu e cresceu numa terra onde a folia junina tem o status e a nobreza das celebrações de Natal. De banzo, os nordestinos que vieram para o Distrito Federal trouxeram o calor das fogueiras, a vibração dos fogos de artifícios, a pujança das danças e a alegria das músicas de louvor a Santo Antônio, a São-João e a São Pedro, essa tríade divina que abençoa o vasto Nordeste. Montaram aqui os forrobodós que amansam a saudade e acarinha o coração doido. 

As quadrilhas de São-João do DF são espetaculosas, exuberantes, teatrais, de passos e coreografias caprichadas. Misturam elementos diversos do complexo universo cultural nordestino, como o maracatu, o coco, o caboclinho, o cavalo-marinho. Fiquei diante dessa antropofagia nesta noite de São-João (24 de junho), no Arraial do CCBB. Enquanto aquela juventude explodia em felicidade, a minha memória de menino despertava diante de mim.

Os jovens de Samambaia e de Taguatinga batiam a mão no peito com um forte sentimento de pertencimento e eu me via correndo menino em torno das fogueiras, queimando as mãos de tanto tocar bombinhas, tentando frustrado soltar um balão, pintando com lápis preto bigode e costeletas. Naqueles junhos da minha infância, havia uma invasão sublime de felicidade coletiva inexplicável e ficávamos todos mais família, mais próximos diante da imponente fogueira de São-João, a fogueira de Xangô Menino.

Generosa que só com as culturas alheiras, Brasília me ensinou a olhar o São-João não com um saudosismo inerte e impotente, mas com a importância na construção de momentos felizes de menino, erguidos ao redor das ceias de iguarias de milho e amendoim. Surgem forte em mim as rezas de Santo Antônio, realizadas em trezena toda noite em minha casa, com mesa farta ao final, numa promessa que minha mãe, Ester, fez para que meu irmão Antônio conquistasse a saúde. A casa se enchia de gente para orar, comer e tomar um licor, sob o coro daquelas mulheres de vozes poderosas (Marota, Maura, Tunina), que saudavam o "poderoso Antônio com incenso suavíssimo."
 Aqui, homem feito, me dei conta o quanto amei e me deliciei com esses ritos. O altar todo decorado, as rezas cantadas, o São-João de rua, das barracas, dos bêbados, das putas e dos namorados. Daqui de Brasília, essa memória me inunda e me regozija nesta noite de 24 de junho de 2012 tão geograficamente longe de minha origem, mas tão íntima em lembranças que senti os meus olhos arderem com a fumaça da fogueira e meu corpo pular de susto com a bomba estourada ao lado. Lavo essa saudade nessa dança extravasada dos meninos e meninas de Samambaia/Taguatinga/DF/Nordeste/Brasil. 

Salve, Brasília! 

Salve, São-João, Xangô Menino!


Fotos do Arraial do CCBB/ Sérgio Maggio








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