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sexta-feira, 4 de maio de 2012

ENTREVISTA // BETH GOULART


Simplesmente eu, 
Clarice Lispector
 é como um vinho que
 o tempo aprimora”

Sérgio Maggio

CRICRI Como a Clarice que você concebeu já tão delicadamente tem crescido nessas sucessivas temporadas?
BETH  A cada espetáculo as palavras de Clarice ganham mais força e dimensão, ganham o eco que o coletivo empresta a experiência teatral. Com o tempo, o espetáculo fica mais orgânico e sua fluidez segue com delicadeza as emoções dos personagens e a intimidade com Clarice é mais real. É como um vinho que o tempo aprimora. E quanto mais domínio se tem em cena maior é o envolvimento com a plateia.

CRICRI  Você acha que o espetáculo tem ajudado a nova geração se aproximar da escritora?
BETH Uma das grandes alegrias deste trabalho é sentir que estou contribuindo para que um numero maior de pessoas conheçam e apreciem Clarice. Muita gente me disse que passou a ler Clarice porque se sentiu mais próxima a ela, muitos nunca tinham lido nada dela porque não compreendiam, ou simplesmente pela estranheza de sua literatura. O espetáculo de certa forma criou uma ponte entre a escritora e a mulher e aproximou seu universo ao cotidiano de todos nós. Ela foi entendida através da sensibilidade e do reconhecimento que foi o que ela sempre buscou. Quando escuto estes depoimentos depois do espetáculo, me sinto mais útil em minha função de artista.

CRICRI Qual foi a importância de estrear em Brasília?
BETH Brasília foi  nossa primeira casa e onde nasceu o espetáculo. Tivemos aqui uma receptividade imensa e um retorno de público e crítica que nos serviu de impulso para voos mais longos e ousados. O público de Brasília é muito inteligente e exigente também, então começar aqui foi nosso primeiro desafio. Me senti abraçada pela cidade e pelo público que respirava junto comigo em cada passagem de personagem, em cada reflexão, em cada silêncio. O espetáculo é cheio de silêncios e eles foram valorizados e compreendidos no teatro do CCBB. A cada sessão podíamos quase que segurar nas mãos a densidade do silêncio e, quando não se escuta o que está do lado de fora, podemos escutar o que está do lado de dentro de cada um de nós, era uma meditação coletiva e muito poderosa. Uma experiência inesquecível para mim.

CRICRI Um dos aspectos mais impressionantes do público é a verossimilhança entre você e Clarice. Em algum momento isso te assustou?
BETH Não, na verdade só me ajudou. Minha preocupação era me parecer por dentro e não só por fora com Clarice, este era o desafio. Revelar não a solidão de Clarice mas a minha, não a sua angústia mas a minha. Neste sentido, eu me revelei no espetáculo tanto quanto ela. Amir Haddad, meu supervisor neste trabalho, me dizia que quanto mais eu me revelasse mais próxima estaria dela, e foi o que aconteceu. Através de minhas escolhas, dos temas abordados em cena, das emoções e sensações, estava o tempo todo dando um depoimento pessoal da minha vida, da dor e da delicia de ser Clarice através da Beth.

CRICRI Você tem pensando em desdobrar essa experiência em outros projetos, como o cinema, por exemplo?
BETH Sim, neste trabalho desenvolvo uma faceta artística que me interessa profundamente, que é a dramaturgia e a direção, ou melhor a concepção de espetáculos e projetos. Neste sentido, eles se desenvolvem em vários veículos diferentes como o teatro e o cinema. Tenho o objetivo talvez um pouco ousado de contar a vida de oito grandes mulheres que fizeram a história do Brasil e com suas ousadias deixaram sua marca indiscutível são elas: Maria Quitéria, Princesa Isabel, Tia Ciata, Nair de Teffé, Dulcina de Moraes, Tarsila do Amaral, Clarice Lispector e Lygia Clark. Cada uma em seu tempo revolucionou os costumes e fez toda a diferença para nossa sociedade. Mulheres fortes que nos inspiram coragem, generosidade e determinação até hoje.

CRICRI Nesse tempo de palco com Clarice, qual tem sido o seu maior aprendizado como atriz e mulher?
BETH Estar no palco é sempre um aprendizado, temos que lidar com o inesperado em cada sessão, é preciso um estado de alerta e atenção mas com um relaxamento necessário para que a respiração siga tranquila. Estar no palco como Clarice é uma dádiva porque suas palavras tem um poder condutor que inebria a todos, eu também fico inebriada por elas , sou uma apaixonada por belas palavras.A literatura de Clarice exercita nossa sutileza diante do mundo, nos faz perceber as diferenças quando usamos a compaixão nas atitudes, quando somos mais gentis e generosos. Somos todos envolvidos por esta aura de poesia e filosofia que se desprende da literatura dela. É como se vivessemos juntos aquele momento de epifania do personagem Ana. Somos transformados por esta experiência, jamais seremos os mesmos. Com isso todas as vezes que faço o espetáculo saio transformada, uma nova mulher para encarar a vida de frente, com mais coragem, otimismo e fé. Pequenas coisas mas que fazem toda a diferença.

CRICRI Qual a carreira do espetáculo (número de público, cidades, prêmios)?
BETH  Foram cinco prêmios sendo 4 de melhor atriz e 1 de melhor espetáculo. De julho de 2009 até dezembro de 2010 o espetáculo foi visto por mais de 200.000 pessoas e passamos por mais de 22 cidades pelo Brasil. Em 2011 paramos o espetáculo para que eu me dedicasse a novela Vidas em Jogo, da TV Record e agora retornamos o espetáculo por Brasília onde tudo começou.

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