Languages

domingo, 27 de maio de 2012

Dama dos guetos






Livro de ensaios de Madalena Schwartz mostra, com poesia e beleza, o universo underground de São Paulo

Sérgio Maggio

Nos anos 1970, transmutar a energia masculina em feminina tinha uma conotação muito mais universal do que reencontrar a “metade perdida da alma”. Decerto, era uma busca pelo ansiado terceiro sexo, mas também a transformação do corpo num território de contestação política. Estávamos amordaçados pela ditadura militar, e o Estado de Segurança em que se instalou no Brasil sustentava-se na tríade moralista — tradição, família e propriedade. Os guetos e a vanguarda cultural abrigaram todos os que se recusaram a pegar em armas, mas queriam dizer “não” a falácia do “este é um país que vai pra frente”. Talvez, sob os tempos de AI-5, tortura, censura e assassinatos políticos, o underground nunca tenha sido tão simultaneamente cruel e acolhedor. Ali, brotou a guerrilha do desbunde, que usou e abusou da androginia, do humor escrachado, dos contravalores, do deboche e da criatividade para tirar o país dos porões.
É nesse ambiente que se desloca, quase em silêncio, a senhora Madalena Schwartz (1921-1993), uma húngara-judia que imigrou, casada e mãe de dois filhos, nos anos 1960, da Argentina para o centro de São Paulo. Ali, pôs as mãos numa inesperada máquina fotográfica, engoliu todas as técnicas, apaixonou-se pelo retrato e embrenhou-se, com mira de esteta, por mundos paralelos. Crisálidas, livro que reúne imagens poéticas e delirantes, expõe o poder de observação, quase etnográfico, sobre o que Madalena chamaria de “seres que se exilaram de suas vidas anteriores para tomar um caminho ousado, sob o signo da diferença”.
— Minha mãe fazia aquilo tudo por pura fruição estética e humana. A dupla revelação que se dava no laboratório e na foto ampliada era sempre surpreendente… Minha mãe não resistia a um rosto interessante, revela Jorge Schwartz, na apresentação do livro.

Dzi Croquettes
É assim, sob forte magnetismo, que as faces exuberantes e maquiadas explodem no ensaio de camarim dos Dzi Croquettes, grupo de dança-teatro que sacudiu os costumes e embaralhou as identidades de gêneros no começo daquela década. Madalena tinha ficado amiga deles, que de modelos, lembra Jorge, viraram amigos e confidentes. Estão lá, irradiando vida, Carlos Machado (Lotinha), Rogério de Poly, Cláudio Gaya, Cláudio Tovar, o divino Paulete e Roberto de Rodrigues, num importante registro iconográfico do grupo. São sequências feitas em 1974, mesmo ano em que a fotógrafa se perdeu por entre os movimentos de Ney Matogrosso, ainda pertencente aos Secos & Molhados. Esses registros evidenciam a androginia, o masculino invadido pelo feminino sem eliminá-lo, na manutenção dos pelos do corpo, por exemplo.
A sensualidade entre dois homens perpassa nos retratos de casais que Madalena constrói numa poética que jamais choca, como no casamento de Tony e Ricardo, de 1973, numa época em que a discussão que empolgava era o sexo livre e a não reprodução dos modelos dominantes. Com sensibilidade ímpar, Madalena mostra, página a página, o desenho dessa nova família. Expõe também a beleza da mulher fora dos padrões de namorada-noiva-esposa-viúva. A modelo e atriz Elke Maravilha pontua essa percepção em fotos especialmente deslumbrantes. A mulher que surge da natureza dos homens, no entanto, encanta os olhos e desenha a personalidade de Madalena Schwartz para além do seu extraordinário talento de fotógrafa. Ao folhear os retratos de Crisálidas, fica a certeza de que, por detrás da câmera, havia uma humanista.



 
   
 
   

Nenhum comentário: