Languages

quarta-feira, 2 de maio de 2012

CRÍTICA // Simplesmente eu, Clarice Lispector




Esta crítica foi publicada no Correio Braziliense em 10/07/09. Era a estreia nacional da peça de Beth Goulart. Agora, SIMPLESMENTE EU, CLARICE LISPECTOR volta sexta (04/05), às 21h (esgotado), e, às 23h, no Teatro Oi Brasília. Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia).  




Nasce uma pérola


Com estreia nacional
em Brasília, Beth
Goulart constrói
espetáculo-poema
que dimensiona a
mulher por trás do
mito literário
Nasce uma pérola



SÉRGIO MAGGIO


Entre o primeiro instante
do espetáculo Simplesmente
eu. Clarice Lispector,
quando Beth Goulart
é ainda uma imagem que fuma,
e o último segundo, no momento
em que atravessa a cortina
numa metáfora à passagem
vida-morte, há uma experiência
profunda, lírica e prazerosa do
espectador com a atriz/personagem.
Mais do que propor a aproximação
com a literatura poética,
a intérprete instiga o público
a se aproximar do pensamento
íntimo de uma mulher que via a
arte como a possibilidade de se
emancipar das amarras medíocres
do mundo real, assim como
é o teatro explicitamente defendido
por Beth Goulart.
Com estreia nacional em Brasília,
no Centro Cultural Banco do
Brasil (CCBB), Simplesmente eu.
Clarice Lispector nasce com a potência
de espetáculo em perfeita
harmonia teatral. Mesmo sem
ainda ter se beneficiado da temporada,
que segue na cidade até 2
de agosto, é montagem que brota
no palco sem necessidade de
ajustes. A delicadeza com que se
materializa aos olhos do espectador
está em cada elemento cênico,
sobretudo na luz narrativa e
lírica de Maneco Quinderé e no
cenário simples e surpreendente
de Ronald Teixeira e Leobruno
Gama. Por aí, passeia uma atriz
que, minuto a minuto, se torna
impalpável em cena.
Beth Goulart cria não só a personagem
Clarice Lispector (com
a voz afetada pela língua presa),
mas sobretudo o âmbito humano
que supostamente envolveu uma
das mais instigantes personalidade
da literatura brasileira. Numa
costura simples entre o testemunho
da escritora e as mulheres
que saltam da sua escrita, surge
uma criatura estranha e cativante,
de ideias simultaneamente filosóficas
(como tudo o que envolve
o ato de escrever) e banais
(como o desejo de se sentir linda
e desejada). Um dos ápices da
montagem (dramaticamente são
vários), a encenação de entrevista
de Clarice Lispector é de conteúdo
forte e engraçadíssimo. Ali,
a escritora se desvela do cruel
processo de mitificação que a
acompanhava.
Com direção de Beth Goulart
e supervisão de Amir Haddad, o
espetáculo tem dramaturgia
que acompanha e favorece o
crescimento da atriz no palco
(aplaudida por vezes em cena
aberta na estreia). Põe por terra
o preconceito de muitos acerca
da febre de monólogos que ocupam
os teatros brasileiros. Simplesmente
eu. Clarice Lispector
tem capacidade tão pungente
como o teatro de elenco. Aliás,
a plateia brasiliense certamente
vê nascer uma peça, que além
da qualidade artística intrínseca,
de provável vida longa, daquelas
que vai acompanhar Beth
Goulart no caminho que trilha
para se tornar uma das principais
intérpretes do teatro do
seu tempo.

Nenhum comentário: