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domingo, 6 de maio de 2012

Anotações sobre direção teatral


Três espetáculo e quatro grandes atores. Final de semana, emendei Conversando com Mamãe, com Beatriz Segall e Herson Capri; Simplesmente eu, Clarice Lispector, com Beth Goulart; e Tudo que eu queria te dizer, com Ana Beatriz Nogueira. Meu olhar se fixou bastante na condução dos caminhos diretoriais de Susana Garcia, Beth Goulart (é dela também a dramaturgia de Clarice) e Victor Garcia Peralta. Como essas rotas afetam, potencializam ou retraem o trabalho desses intérpretes. As anotações críticas que seguem se referem, portanto, a esse recorte de construção, costura e montagem do espetáculo. 


TUDO QUE EU QUERIA TE DIZER



 O primeiro monólogo de Ana Beatriz Nogueira evidentemente deseja mostrar a capacidade  impar de interpretação de uma atriz cheia de possibilidades e nuances. Victor Victor Garcia cumpre a missão complexa, já que o texto, base do trabalho, não é de origem teatral. São cartas escritas pela cronista e poeta Martha Medeiros. Diante dessa matriz, Victor Peralta inteligentemente expõe o processo teatral ao colocar Ana Beatriz Nogueira num palco nu, com as marcas evidentes a partir de linhas desenhadas com fita crepe, foco de luz nos dois únicos objetos de cena (uma cadeira e um pufe preto) e uma atriz que começa e termina o espetáculo lendo cartas trocadas entre ela e Martha, que pertencem ao processo teatral em sua concepção criativa. 
Esse clima meio Dogville (o filme-teatro de Lars von Trier) é o palco aberto para Ana Beatriz Nogueira transformar as cartas de Martha Medeiros num jorro vivo que inunda a imaginação a partir do corpo/voz da atriz. As cartas saltam para construir cenário, figurino e personagens que enchem de vida aquele palco nu num potente jogo cênico estabelecido entre uma atriz genial e uma plateia fisgada palavra a palavra. 
Entre um intervalo e outro, Ana Beatriz segue para o pufe, bebe água, respira, limpa o suor como um boxeador que se prepara para voltar ao ringue e vencer a difícil tarefa de levantar altos voos na imaginação de um espectador ativo e pronto para ser patner de uma atriz que não está só. Como Beth, Victor Garcia Peralva também trabalha sutilmente as transições. É lindo quando uma história emenda-se na outra numa simples virada de corpo da atriz no eixo da cadeira. De uma jovem mulher, ela se transforma numa velha apaixonante. Que atriz estupenda!

CONVERSANDO COM MAMÃE

Fotos//Divulgação

 Dois grandes atores estão sufocados no palco por uma direção dura, presa a marcas e sem criatividade. Encerrados num pesado cenário realista, que pouco dialogo e é nada funcional, Herson Capri e Beatriz Segall têm um espaço cênico de descolocamento reduzido e quase fixo entre uma mesa centra e uma poltrona de descanso. Estão extremamente marcados nesse curto caminho,que ainda passa por uma porta. Não há muita ação para que as personagens desenvolvam a narrativa muito centrada na discussão entre mãe e filho. 
Susana Garcia não trabalha aspectos lúdicos e poéticos sugeridos pelo texto do argentino  Santiago Carlos Oves, como o ato de cozinhar da personagem de Beatriz. Há uma cozinha imensa montada atrás que só serve para mostrar o suposto encanamento da pia. Os cheiros, o ato de cozinhar, o corte das carnes... tudo isso poderia quebrar o movimento estático de Beatriz Segall em quase toda a parte do espetáculo. 
Susana não faz uso dos elementos cênicos como um potencial em prol da narrativa. A iluminação e a trilha sonora ora reforçam momentos melodramáticos ora seguem sem unidade com a narrativa. Outras sutilezas da dramaturgia, como a morte da velha senhora, têm passagem dura e quase imperceptível. 
Há ainda uma busca desnecessária para marcar um ponto dramatúrgico para o riso, a constante remissão da personagem de Beatriz à sogra. Isso vira uma muleta, que mesmo que estivesse na dramaturgia, ou uma desconfiança da diretora na capacidade do texto em tirar naturalmente o humor.Poderia ser enxugada nas mãos da direção. 
Na condução da composição dos personagens, Herson Capri se mantém monocórdio, muito mais para irritadiço do que para um filho que se desnuda e se transforma ao longo da conversa com a Mãe. O desenho da personagem de Beatriz Segall é mais rico. Tem a fragilidade, o humor e o sarcasmo em medidas certas. Lembra inicialmente a Maude, de Ensina-me a viver, mas, em minutos depois, estabelece uma estatura própria. A montagem segue instigando, entre altos e baixos, sobretudo, pela envergadura de Beatriz Segall em cena. 


SIMPLESMENTE EU, CLARICE LISPECTOR


  Já tinha assistido a duas vezes este brilhante trabalho de Beth Goulart. Dessa vez, fixei, sobretudo, na direção de Beth, trabalho com supervisão de Amir Haddad. É impressionante a noção de edição e de montagem de Beth Goulart. Como um bom leitor de Eisenstein, este aspecto tem me excitado bastante nos recentes exercícios de direção que fiz com os 12 módulos do projeto Mitos do Teatro Brasileiro, com a montagem Eros Impuro e com criações acadêmicas da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes. Beth Goulart emenda e costura minunciosamente as pequenas passagens dos muitos quadros de Simplesmente Eu. Como faz muitas transições em frente ao cenário de cortinas para trocar de personagens/figurinos, esse aspecto lhe parece urgente e é resolvido dentro da poética do espetáculo, luz extremamente narrativa, trilha para cobertura, partituras de gestos. É realmente um exercício de aprendizado para quem assiste. Sobre a composição da atriz e a dramaturgia já escrevi na crítica Nasce uma pérola, quando o espetáculo estreou nacionalmente no CCBB Brasília. 




Um comentário:

Max disse...

Adorei as suas anotações críticas sobre direção, como isso faz falta para nós, atores, diretores, artistas. Salutar a forma do diálogo, sem sem ofensivo. Coincidente vi as três e tenho impressões parecidas. O que teria sido de Conversando com Mamãe se o espetáculo tivesse sido entregue a um diretor de verdade? Beth e Ana dispensam comentários além destes. Elas serão nossas Nathalias, Fernandas, Cleydes, Bibis, Cacildas, Dinas, Tônias, Evas que sempre farão do Brasil um palco de grandes mulheres. Axé, querido!