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terça-feira, 3 de abril de 2012

Janete Clair, um mito


Esta reportagem saiu no Correio Braziliense em 21/11/2003, data que marcou os 20 anos de morte de Janete Clair. Posto aqui a pedidos da leitora Sâmia.

Sérgio Maggio

"Alma brasileira", copyright Correio Braziliense, 21/11/2003

"Janete Clair revolucionou a linguagem da telenovela com ousadia e emoção. Hoje, 20 anos da morte da autora, ela recebe homenagem com livro que refaz a trajetória e cataloga a obra

Tem um Brasil que nunca esqueceu o beijo final de Cristiano e Simone em Selva de pedra (1972). Existe um país que parou para descobrir quem assassinou Salomão Hayala em O astro (1978). Há uma platéia que guardou nas reminiscências as histórias de tantos personagens. João Coragem, Herculano Quintanilha, Ana Preta, Juca Pitanga, Priscila Capricce, Luana Camará. A lista de tipos inesquecíveis se esgotou há exatos 20 anos. Naquele 16 de novembro de 1983, morria Janete Clair, a autora que criou o jeito brasileiro de fazer telenovela. A trajetória revolucionária de Janete Clair virou objeto de pesquisa para os jornalistas Mauro Ferreira e Cleodon Coelho. A dupla acaba de lançar o livro Nossa Senhora das Oito (Editora Mauad), que cataloga a obra da autora e traz detalhes sobre a vida da novelista. "Foi Janete que provou ser possível a convivência do bom texto com o apelo popular. Foi contando com Janete que Daniel Filho e eu nos livramos da Gloria Magadan", revela José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni, no prefácio da obra.

A influência de Gloria Magadan era nefasta para a tentativa de se criar linguagem própria para a telenovela brasileira. A autora cubana supervisionava os folhetins da Globo, quando Janete Clair foi convocada para intervir na novela Anastácia, a mulher sem destino. A adaptação do ator Emiliano Queiroz era um desastre. Mal chegou nos corredores da emissora e a autora, que vinha da TV Tupi, ouviu da estrangeira frase que virou lenda:"Tenho um abacaxi para Você".

Diante do "abacax", protagonizado por Leila Diniz, Janete Clair tomou decisão histórica. Provocou terremoto que matou que eliminou quase todos os personagens. Sobraram quatro para reiniciar nova história. "O desastre acabou sendo o passaporte para Janete entrar na Globo", conta Mauro Ferreira.

O passaporte levou Janete Clair a inaugurar o horário nobre da Globo. Em Sangue e areia, a autora mergulhava no universo das touradas, iniciando parceria com o casal Tarcísio Meira e Glória Menezes. Estava no ar, Demian, o justiceiro, da poderosa Gloria Magadan. As comparações foram inevitáveis e os resultados extremos. Sangue e areia era sucesso; Demian, o justiceiro, fracasso. "As duas novelas estrearam no mesmo dia. Janete tinha domínio da língua e escrevia bem melhor que a Glória Magadan, que redigia em espanhol. Magadan ficou enciumada e sentiu que havia uma pessoa para concorrer com ela", revela Daniel Filho, no livro.

Cenas da vida real

O nome verdadeiro de Janete Clair era Janete Stocco Emmer, mineira nascida em Conquista, em 25 de abril de 1925.

Em 1945, na Rádio Difusora, a locutora Jenete conhece o jovem Dias Gomes, à época casado com Madalena. Eles tiveram relação extraconjugal até 1947, quando o dramaturgo se separou.

Antes das telenovelas, Janete escreveu várias radionovelas. Rumos opostos foi a primeira de 31 histórias.

Janete Clair teve problemas graves com o ator Sérgio Cardoso na trama Paixão proibida, da TV Tupi. O ator reclamava do texto e queria alterá-lo, gerando conflito com a autora.

Na época de Véu de noiva, Dias Gomes escrevia Verão vermelho. Janete Clair teve a idéia de colocar a personagem Flor (Myriam Pérsia) na trama do marido. Assim, Flor foi consultar o curandeiro interpretado por Paulo Goulart. A cena foi ao ar nas duas novelas. O feito é inédito na história da telenovela.

Filha de Janete Clair, Denise Emmer estourou nas paradas de sucesso com a gravação de Alouette, interpretada em francês, da trilha de Pai herói (1979).

A queda da cubana

O início da era Janete Clair foi um questão de tempo. Em 1970, a novelista revolucionou a linguagem ao levar para as novelas o tom naturalista em Véu de noiva, com Regina Duarte e Cláudio Marzo. A trama é primórdio da aproximação de ficção e realidade. Janete Clair introduziu as tramas paralelas. "Foi em Véu de noiva que descobri que uma história, para ser mais longa, não poderia depender da linha principal", declarou Janete Clair, em entrevista de 1979.

Janete Clair emplacaria um sucesso atrás do outro na década de 70. Irmãos Coragem (1970) fisgou o público masculino com trama que misturava garimpo, futebol e política. Selva de pedra bateu recorde de 100% de audiência. "Isso aconteceu no capítulo em que Simone era desmascarada por usar a identidade da irmã morta, Rosana Reis", revela Mauro Ferreira.

Casada com Dias Gomes, Janete tinha o dia-a-dia dividido entre a criação de capítulos e a rotina de mãe. "Simples, pois era uma dona-de-casa, cuidava da educação dos filhos e nunca mostrou o mínimo de arrogância, que sua posição permitia. Um gênio por, praticamente, inventar a novela da tevê brasileira como é feita até os dias de hoje. Inventou o melhor modelo de folhetimdo mundo", avalia Gilberto Braga, seguidor da autora.

Outra aprendiz confessa é a autora Glória Perez. Coube a ela a missão de ser a primeira e única assistente da autora em Eu prometo (1983). A novelista estava em fase final do desenvolvimento de um câncer de intestino. Glória e Dias Gomes concluíram a trama. "Janete costumava dizer que tínhamos ponto essencial em comum: o despudor, a coragem de ousar, de ir fundo nas emoções", revela a autora de O clone."

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