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sábado, 21 de abril de 2012

Crítica// Sem pensar

Nasce um diretor
                                                                por Sérgio Maggio




O espetáculo Sem pensar, que está em cartaz até domingo (dia 22/04), na Sala Martins Pena do Teatro Nacional, tem várias janelas de diálogo. Uma das mais abertas e convidativas, para se adentrar na montagem, é o trabalho de atriz de Denise Fraga, que tem uma peculiar e expressiva capacidade de trazer no corpo a dualidade entre comédia/drama, timing perfeito já demostrado, com maestria, por exemplo, em A alma boa de Setsuan, uma montagem que aproximou a complexa obra de Brecht do grande público sem trair as suas premissas dialéticas.

Outra fresta para dialogar com Sem pensar é a dramaturgia da inglesa Anya Reiss, que escreveu a peça quando tinha apenas 17 anos. O texto é extremamente caústico, numa ferocidade que surge entre os interstícios da tragicomédia íntima nossa de cada dia. Dá um pano pra manga falar sobre essa narrativa, justamente pela sua capacidade de colocar o espectador diante de um espelho, cujo reflexo é patético e cruel das nossas vidas ínfimas, tudo permeado com a astúcia da mente juvenil.  

           No entanto, o que mais me impressiona e me deixa em estado de êxtase para caminhar por Sem pensar é a direção elaborada de Luiz Villaça, respeitado e promissor cineasta, que faz dessa experiência sua estreia no teatro. E que estreia! Sem pensar tem a natureza ágil dos vaudevilles, um gênero que é uma espécie de prova de fogo para o montador, sobretudo, por exigir ritmo, tempo preciso entre comédia e drama e muito fôlego. Por quase duas horas, a história da adolescente que se apaixona por um adulto em meio a uma egoísta relação conjugal dos pais se desenrola por uma narrativa que intercala, como numa partitura, o riso e o silêncio da reflexão.

      Não é nada fácil orquestrar essa matemática enfrentando um texto cheio de armadilhas. A maior delas:dois núcleos de linguagem e conteúdos distintos: o dos adultos (pais) e o dos adolescentes. Manter essas discussões em pé de igualdade sem cair no risível é mérito duplo da direção de Villaça e da dramaturgia de Anya Reiss, que não se preocupa em aprofundar questões, mas em apontá-las a partir de um olhar ferino de uma adolescente posta em um jogo extremamente cruel. O final do espetáculo emudece.  

A direção de ator é também muito bem-cuidada. A química entre Denise Fraga e Kiko Marques é um ponto alto da montagem, por vezes, sustentada numa eficaz chave de clown (a cena da família sentada no sofá é um ápice disso). Mas o trabalho dos jovens atores, Julia Novaes e Kauê Telloli, sobretudo, é tão potente, e difícil, quanto o do núcleo adulto.   

Villaça traz para o teatro ainda a preocupação estética da montagem cinematográfica. O espetáculo se preocupa em não deixar frestas na narrativa, que segue fluída e continua. As atrizes que vivem as amigas da jovem protagonista funcionam como contrarregras para a passagem de tempo cronológico de um fim de semana. Essa preocupação também se esboça com a ocupação espacial dos atores que, por conta do cenário de Valdy Lopes (vazado e em dois níveis), induz ao possível abuso das cenas simultâneas, recurso tentador, mas que o diretor equilibra muito bem num interessante jogo cênico, em que ainda brinca com clichês e faz o público rir muito no seu devido tempo e se calar na devida hora. 

Ao final do espetáculo, além da sensação extremamente vibrante de assistir a uma montagem bem realizada, a constatação de que, com Sem pensar, nasce um diretor com mão boa e firme para o palco. 

Para conhecer mais o espetáculo sugiro a leitura da matéria da jornalista Caroline Maria, publicada no Correio Braziliense        
       
       

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