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segunda-feira, 26 de março de 2012

Outros tantos num só


Chico Anysio com o ator Jones de Abreu no palco do CCBB


Conhecido sobretudo pelo humor, Chico Anysio se destacou como compositor, roteirista, escritor e exímio pintor de marinas


SÉRGIO MAGGIO


Chico Anysio viveu a década de ouro do rádio, da descoberta da música brasileira, de um Rio de Janeiro cheio de cabrochas, malandros, cassinos, vedetes, prostitutas polacas e tantas personagens de carne e osso. Ali, o homem de alma de artista captava tudo e criava sem parar. Muito antes de se tornar um astro da televisão, escreveu roteiros para o cinema, deu vida a personagens no rádio, narrou as maravilhas do futebol e compôs canções. Mais de 400 (gravadas por Maysa, Silvio Caldas, Orlando Silva, Alcione). Uma delas, Rio antigo, é uma obra-prima, composta ao lado de Nonato Buzar.
“Quero um bate-papo na esquina/ Eu quero o Rio antigo/ Com crianças na calçada/ Brincando sem perigo/ Sem metrô e sem frescão/ O ontem no amanhã/ Eu que pego o bonde 12 de Ipanema/ Pra ver o Oscarito e o Grande Otelo no cinema Domingo no Rian/ Me deixa eu querer mais, mais paz.”
Chico, que tomava cerveja na Lapa com Madame Satã, filmava com Dercy Gonçalves, costumava atravessar a madrugada bebendo e conhecendo gente. Adorava ver o dia amanhecer e ali foi fortemente influenciado pelo contato físico e musical de Vinicius de Moraes, Tom Jobim e Ronaldo Bôscoli. Nesse Rio poético, viu nascer a bossa nova, tomando uísque e se apaixonando pela vida numa cidade que parecia abençoada pelos deuses — sem assaltos e com o calçadão de Copacabana todo seu.
Não à toa, Chico criava sempre apaixonado. Do mar, herdou o amor pelas marinas. A arte de pintar ocupava o tempo que ele, como um mestre, fazia esticar. Bem avaliados pelo mercado, os quadros se destacavam pela força das cores e das paisagens. O exercício era tido como paralelo ao trabalho de composição como ator e intérprete. Para ele, o humor era é um tapa, quase uma violência.
— A pintura é uma parte poética, lúdica, um carinho, uma carícia, disse o artista numa exposição individual em 2008.
Dono de um apurado olhar cotidiano, Chico Anysio também percorreu o caminho da escrita em romances, crônicas e contos. Dono de humor próprio e narrativas fluídas, ele escrevia o que via e tocava o coração. No livro, O fim do mundo é ali, por exemplo, fez crítica social forte aos pequenos delitos do dia a dia. Essa marca caracterizou o humorista, fortemente censurado na época da ditadura militar, por fazer de Chico city, nos anos 1970, um microcosmo do Brasil rasgado ao meio pela corrupção.
A qualidade desse riso fez dos contos de Chico Anysio um instigante mapa de humor. No conto Chico festeiro, por exemplo, um sujeito esperto, apropriando-se da capacidade de organizar os festejos da cidade de São Roque, acerta, em contrato com a prefeitura da cidade, que, a cada citação feita no discurso ao nome do santo padroeiro, ele ganhará um dindim a mais. Uma parte do longo palavrório diz: “Vejam que até os sapos da lagoa cantam hosanas ao poderoso São Roque, naquele seu cantar característico: roque, roque, roque, roque…”
Multifacetado, o artista genial terminou a vida como um ator cobiçado pelo cinema e pelas telenovelas. Tudo que criou na seara do humor servia como base para interpretações magistrais como em Tieta, de Cacá Diegues. No set, numa das cenas mais difíceis, Chico Anysio, dono do personagem Zé Esteves, pai da protagonista, tinha que filmar um complicada morte, numa externa em que caia e a câmera tinha ainda que pegar um close de um animal. A tomada foi feita de primeira e o ator foi aplaudido em cena aberta. Esse era Chico Anysio, o artista que quase tocou a perfeição.

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