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segunda-feira, 26 de março de 2012

Mil Chicos



SÉRGIO MAGGIO

As cortinas vermelhas do Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) ainda estavam cerradas quando Chico Anysio foi trazido pela produção do projeto Mitos do teatro brasileiro para o palco. Ele estava numa cadeiras de rodas e seria acomodado cuidadosamente na poltrona, sem que o público percebesse a dificuldade de locomoção. O humorista tinha enfrentado, um mês e meio antes, uma complexa internação por conta de uma hemorragia digestiva. Quando atravessava a coxia, o filho André Lucas chamou a atenção dele:
— Olha, pai, é o senhor, apontando para o banner de três metros com a foto do humorista.
Como se estivesse diante de um espelho, Chico Anysio fixou-se atentamente àquela imagem. E os olhos marejaram. Nesse momento, da plateia lotada, ouviam-se risos dos espectadores a se deliciar diante de um vídeo raro de Chico City, de 1971.
— Tá ouvindo, pai? Eles estão rindo do senhor, acarinhava André.
Naquele 20 de outubro de 2010, Chico Anysio preparava-se para receber a última grande homenagem pública em vida. Quando as cortinas se abriram e os espectadores o aplaudiram de pé, o homem de mil faces já estava de rosto nu e embargado pela emoção.
— Estou aqui no meio dos grandes. Dulcina de Moraes, Procópio Ferreira, Dercy Gonçalves, Nelson Rodrigues e Cacilda Becker. Tomei até um susto porque todos estão mortos. Pensei: será que eu vou ter que morrer também?, brincou, arrancando gargalhadas uníssonas.
A morte chegou ( um ano e dois meses ) depois de enfrentar sucessivas crises hospitalares em 2011. Por conta de problemas cardíacos, pneumonias e hemorragia digestiva. O genial humorista partiu, aos 80 anos, com a lição de ter lutado minuto a minuto pela vida. Venceu uma hospitalização de 110 dias e voltou a gravar o quadro, com Salomé, no Zorra total. A voz miúda e a nítida perda de energia denunciavam à saúde frágil. Foi numa internação, aliás, que ele não pôde se despedir da irmã Lupe Gigliotti, que morreu de câncer e foi enterrada sem ele saber.
— Foi graças a Lupe que eu virei rádio-ator e locutor de uma vez só. Cheguei em casa para pegar um tênis e encontrei ela e um amigo saindo para a Rádio Guanabara a fim de fazer um teste. Desisti do futebol e fiquei em sétimo lugar para rádio-ator (o primeiro foi Fernanda Montenegro) e segundo para locutor (o primeiro foi Silvio Santos), contava.
Nessa época, aos 17 anos, Chico ainda era Francisco Anysio. E vinha dos programas de auditório abarrotado de prêmios e elogios de tanto imitar os artistas de fama. Com a velocidade de um corisco, o cearense de Maranguape acumulou rapidamente funções na rádio. De rádio-ator e locutor, se fez comediante, roteirista e comentarista esportivo. Tudo em pouco mais de um mês. Começava ali a ganhar força o furacão que tomaria conta da tevê, do cinema, do teatro, da literatura e das artes visuais.
— Sou o único Francisco que virou Chico quando quis. Depois que Chico Anysio Show estreou e foi aquele sucesso nas ruas, até minha mãe passou a me chamar de Chico no dia seguinte, dizia.
A arte de tirar graça da vida era um dos maiores trunfos de Chico Anysio. Nos shows de humor (hoje os difundidos stand-up comedy) que fazia desde a década de 1960, ele tirava sarros de fatos biográficos, como o seu nascimento em Maranguape.
— Era tão feio, mas tão feio, que o médico me colocou num frasco por dois meses até me apresentar ao meu pai, brincava.

Ator sofisticado

Chico era um cronista e um exímio observador do cotidiano. Os personagens brotavam naturalmente de um olhar. Às vezes, ele colocava a voz primeiro. Ou algum gesto. Tudo era muito contido nas composições. Chico Anysio surgia como um intérprete sofisticado num período em que as estrelas precisavam de movimentos largos e vozes empostadas. O teatro brasileiro tinha entrado havia pouco tempo na modernidade e Chico Anysio trazia criações sustentadas em detalhes. Foi a tevê, no entanto, que destacou a genialidade. Uma sobrancelha peluda e ressaltada, um nariz avantajado, uma boca pequena explodiam diante da câmera e deixavam o telespectador boquiaberto com esse ator de 209 faces.
— Como eu não tinha a graça de Brandão Filho, o talento de Walter D’Ávila e de Oscarito, quis começar travestido, sem mostrar o rosto, para que o espectador se encantasse a cada personagem.
A sofisticação dos personagens deixou o Brasil de boca aberta. A rádio já trazia a força de Chico Anysio como o Professor Raimundo, mas foi a tevê que propagou o talento de Norte a Sul. Em 1971, no auge da ditadura militar, Chico City estreava na Globo satirizando a corrupção e as maracutaias. Chico enfrentava a censura com altivez. Não abria mão do humor social, que trazia a crítica política associada.
— A gente gravava uma hora e meia para um programa de 50 minutos porque sabia que a censura cortaria, lembrava.
Por tantas vezes, veio a Brasília pessoalmente defender os textos. Não gostava que o censor cortasse sem ser lido por ele. Foi brutalmente cerceado, mas suportou, com humor, as piores pressões. Atravessou as décadas seguintes como líder absoluto de audiência até enfrentar a indiferença da TV Globo no fim dos anos 1990, quando foi colocado na geladeira ao fazer críticas à nova gestão da empresa. Foi redescoberto pelo cinema e virou ator cult de novelas. Mas o que queria mesmo era voltar com A escolinha do Professor Raimundo e o Chico Total. Em outubro, postou no blog o desejo de reeditar o humorístico comandado pelo educador que tinha como bordão o baixo salário. Ele adorava tanto passear pelas centenas de criações como dar empregos aos humoristas de várias gerações.
— Quero trabalhar até o último minuto de vida, dizia.
Infelizmente, não conseguiu ter de volta o espaço proporcional ao tamanho do seu talento e de sua contribuição para o humor brasileiro. Antes de cair doente, estava com um quadro no Zorra total, como Bento Carneiro, o vampiro brasileiro. Mas no Viva, canal de reprises da Globosat, era a estrela maior. Chico e seus personagens passavam nos três turnos.
— E não ganho nada por isso, contou na última passagem por Brasília.

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