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terça-feira, 27 de março de 2012

A iluminação teatral

O ator Jones de Abreu em Arlequim, de Hugo Rodas

Texto de Rafael Dias para a Revista da Livraria Cultura
O cantor e performer Ney Matogrosso, que, nos bastidores, assume também a faceta de iluminador cênico, recebeu, em 1993, uma missão: a pedido da atriz Marieta Severo, então ainda esposa de Chico Buarque, ele deveria fazer o plano de luz da turnê Paratodos. Sob a máxima de que iluminação de show ou peça teatral não é para colorir ou enfeitar, mas emoldurar o espetáculo, Ney usou apenas uma sutil luz branca e, para disfarçar a timidez de Chico, aplicou feixes cor-de-rosa ao redor do músico na interpretação da música Valsinha, como se a imanência da luz bailasse no “dois-pra-lá-dois-pra-cá”. A luz pop e despretensiosa surtiu um efeito arrebatador. “Era isso o que eu queria”, derreteu-se Marieta.

Essa concepção artística da luz enquanto elemento cênico vem emergindo em um universo de shows e peças de dança e teatro no qual a técnica em si já não basta. Em vários estados do Brasil cada um com sua marca própria, e até com certa “estética” ainda não patenteada oficialmente, alguns iluminadores criam conceitos e significados e inventam técnicas a partir de uma parafernália de lâmpadas, refletores que alçam a iluminação a um patamar de maior independência artística. Quanto ao público, acostumado ao bombardeio de luzes difusas no palco, uma luz-arte com desenho, texturas e cores ajuda a aguçar a percepção de uma obra viva, entre ser um deleite para os olhos.
Não são muitos os lighting designers, como passaram a ser denominados esses profissionais na arte moderna em atuação no país. Nomes como os de Marisa Bentivegna e Alessandra Domingues (SP) e o do diretor fotográfico Affonso Beato (RJ), por exemplo, firmaram-se no terreno da criação artística – ao lado do dramaturgo, do diretor e do ator, como parceiro no processo de elaboração criativa de um espetáculo – com assinatura e traço autorais. Embora sejam pouco reconhecidos assim, passaram a ser artistas cênicos com expressão própria, um passo além dos papéis de montador (aquele que monta e distribui os robôs-luz de acordo com o plano do iluminador), eletricista de cena (que dá suporte técnico durante o espetáculo) e operador (que executa a operação da luz).

Maneco Quinderé, piauiense radicado no Rio, é o emblema de que a luz virou peça pop. Requisitado para peças da Broadway carioca e experimentais, o iluminador cravou seu target de poesia e minimalismo na composição da luz em peças de Aderbal Freire-Filho (A bandeira de cinco mil réis, com Marco Nanini) e Enrique Diaz (o premiado In on it, com Fernando Eiras e Emílio de Mello, em que a luz é protagonista com apenas duas cadeiras no palco), além dos shows de Maria Bethânia, Ivan Lins e Marisa Monte. Em 28 anos de carreira, ganhou dois Molière (prêmio máximo do teatro brasileiro, já extinto) e uma dezena de troféus Shell, Mambembe, APCA etc.
Mas, muito antes de se consagrar entre os melhores criadores, um iniciante Quinderé atuou na reserva técnica. Seu início, depois de se mudar com a família para o Rio aos 18 anos (hoje tem 47), foi como contrarregra do espetáculo teatral Barreado (1981), com direção de Domingos de Oliveira. Em seguida, trabalhou como assistente de luz para a dupla Luiz Paulo Nenem e Aurélio di Simone até fazer sua estreia como “fazedor de luz” com a peça Tupã, a vingança (1984), de Mauro Rasi, com Lucélia Santos e Rubens de Falco no elenco. Seja na adaptação da obra de Nelson Rodrigues, seja no humor besteirol de Miguel Falabella, passando por musicais como Hairspray e Tom e Vinicius, Maneco mantém coerência na sua forma elegante de desenho.




“Posso usar apenas dois refletores e uma lamparina ou uma [lâmpada] dicroica. Ou fazer uma peça com uma lâmpada normal e colocá-la dentro de um guarda-chuva branco para sugerir o aspecto do dia; ou amarelo, para uma tarde de sol. A iluminação é uma mágica em que posso fazer o teatro dez vezes maior que qualquer arte que eu tenha em mãos”, comenta. Esse sopro de luz contemporâneo e cheio de personalidade também é marca no trabalho de Guilherme Bonfanti, de São Paulo.

Com a Cia. Teatro da Vertigem, que ele ajudou a fundar junto com o diretor Antônio Araújo, Bonfanti assinou a iluminação de todos os espetáculos do grupo, desde 1992. É dele, por exemplo, a produção de Paraíso perdido, O livro de Jó e Kastelo, mais recente, inspirado na obra de Franz Kafka. Projetos que lhe renderam cinco Shell, quatro APCA e um Mambembe, entre outras premiações. Além do teatro, Guilherme também ensina (é coordenador do primeiro curso de iluminação da SP Escola de Teatro) e responsável pela concepção luminotécnica das últimas edições da Bienal de Arte de São Paulo.

É bem verdade que a luz, até perder a simples função de mero adorno, não se fez sozinha. No teatro, o que impulsionou a iluminação a ser apreciada também como arte foi a proximidade de iluminadores com o conjunto de pensadores do fazer artístico, entre atores, dramaturgos e diretores. Características semelhantes nas trajetórias de Quinderé e Bonfanti, que enxergam a luz cênica como um elemento agregador, pensado e discutido em grupo. “São inúmeras as funções da luz, desde as mais técnicas – revelar, esconder, trabalhar a volumetria –, até a de trazer camadas de significados a uma obra, se sobrepondo a e dialogando com as outras áreas”, frisa Bonfanti.

A LUZ E O TEATRO MODERNO
A ascensão da luz nos espaços cênicos é um dos marcos do teatro moderno. Depois da invenção da lâmpada incandescente pelo norte-americano Thomas Edison, no final do século 19, abriu-se uma gama de inventos tecnológicos até chegarmos ao LED (sigla em inglês para diodo emissor de luz) e ao moving light (refletores robotizados), usados de forma até banalizada em superproduções atuais. Independentemente dos recursos aplicados, a iluminação deixou de ser coadjuvante para assumir a função de um dos principais elementos cênicos de linguagem hoje em dia.

Para o jornalista, dramaturgo e crítico cultural Sérgio Maggio, baiano com pés fincados em Brasília, a luz também é dramaturgia. “O conceito de teatralidade só ganhou sentido com a luz, surgindo fortemente aí o teatro simbolista. Ao longo do século 20, a luz foi ganhando uma autonomia tão grande que se tornou narrativa e, em alguns casos, como no teatro de Samuel Beckett, a luz é tão física e corpórea quanto a presença de um ator”, diz.





Não à toa, a maioria dos designers de luz é formada na “escola” do teatro que reproduz o desenho mais requintado em shows de alcance de massa – um fenômeno que ganhou impulso com o advento da era do download e da valorização da performance. O iluminador pernambucano Jathyles Miranda é um desses. Depois de iluminar várias peças teatrais no Recife, que depois excursionaram por São Paulo e outras cidades brasileiras, com destaque para Rasif – Mar que arrebenta, do escritor Marcelino Freire, Alheio, de Leidson Ferraz, e Auto da Compadecida, dirigido por Marco Camarotti, foi contratado pelo Natiruts para fazer a atual turnê do grupo. Antes disso, já havia se credenciado na produção de Mundo Livre S/A, Nação Zumbi e Cordel do Fogo Encantado. Mas foi com Mercados e futuros, dirigido por José Paes de Lira, com Lirinha (ex-vocalista do Cordel), e com Angu de sangue, do Coletivo Angu de Teatro, que deixou sua marca de iluminador criativo, usando materiais alternativos para tentar driblar a falta de recursos financeiros.

“Na apresentação da música Nossa senhora da paz, Lirinha mostrava duas lâmpadas de bateria de calculadora nas mãos, que pareciam chagas de prego batido e faziam referência a Cristo na cruz”, lembra Jathyles, que ainda hoje mora no bairro da Bomba do Hemetério, periferia do Recife, onde começou a carreira em pequenos espetáculos ainda na adolescência. A estética não convencional é outra tônica presente no trabalho de João Batista, considerado o “MacGyver da iluminação”, em Salvador, na Bahia. Usando diferentes tipos de lâmpadas (dicroicas, micropar), JB, como é conhecido, já fez de tudo: de trio elétrico e shows de axé musica shows de Elza Soares, Buena Vista Social Club e espetáculos de dança.

De Porto Alegre (RS), a iluminadora Marga Ferreira é tida como mestre desse tipo de arte no Brasil. É inventora de técnicas, como a da “gelatina vazada” (espécie de filtro especial usado em refletores), copiada por outros artistas. Ao longo de 31 anos de trabalho, ministra várias oficinas pelo país e assina inúmeros shows, entre eles Tangos e tragédias, da dupla Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky, e para o grupo Rock de Galpão. Para Marga, “a arte de iluminar é dependente química de inspiração, como outras artes”.


Se iluminar requer inspiração, atores, dramaturgos, fotógrafos, músicos e uma série de outros artistas também dependem de um serviço de luz bem feito. “Acho importantíssimo em qualquer espetáculo. Em porcentagem, a luz tem 33% de participação, mesma quantidade que o som e o cenário”, diz o cantor Tiago Andrade, da banda Zé Cafofinho e Suas Correntes, recentemente premiada pelo programa Rumos Itaú Cultural. “Mais do que ‘algo que está iluminando’ a cena para a fotografia, a iluminação cênica é também parte do que me influencia a tomar essa ou aquela decisão a respeito da produção de imagem do espetáculo (...) é quase inseparável”, opina o fotógrafo João Meirelles, de São Paulo.

Para o ator Roberto Audio, diretor da Cia. Bruta de Arte, a participação do criador de luz é a parte mais “delicada” que existe no processo de construção de uma peça. “É um tipo de dramaturgia que colabora para o crescimento do ator e do encenador”, afirma.©

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