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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Meu amigo “Azul”



Sérgio Maggio


Ele não precisa de nome porque não carrega ego nem identidade. Há um bom tempo assina as suas criações pictóricas com um pequeno traço de cor azul. É representado no universo por esse símbolo. Mas o povo tem a necessidade de designá-lo de alguma forma. Ora “Azul” ora Iolovich. Eis que surge, na noite, esse ser que vende quadros com uma performance única: a de passar as telas, uma a uma, com as mãos suspensas como se fossem um filme que se movimenta quadro a quadro.

Essa figura inigualável faz parte da minha Brasília afetiva, aquela que se formou nos vãos da cidade. Sempre encontro meu amigo no Beirute da Asa Sul, a nossa sala de estar. Na última sexta, estava lá, sempre cercado de gente boa, a contar maravilhado que foi pela primeira vez à nova Feira da Torre de TV e ficou fascinado com uma roda de capoeira, que se formou no meio do concreto. “Havia um poder vindo dela. Parecia a Bahia. Brasília fornece essa acolhida, essa força, é terra para todo mundo se expressar.”

É um sábio esse “meu símbolo maior da arte de resistência desta cidade”. Foi olhando para ele que entendi como Brasília dá régua e compasso para riscá-la como se fosse uma grande tela em branco. A capital de todos se manifesta como uma mãe generosa que abriga, sem preconceitos, o boi do Maranhão, a escola do samba do Rio, os blocos de rua de Pernambuco, os candomblés da Bahia e a arte de “Azul”.

“Azul”, sem dúvida, é uma dessas incríveis criações urbanas. Ele frequenta uma das seitas mais antigas do mundo, em alguma sala do universo quase galáctico do Conic. Lá, conecta-se ao cosmo, à natureza e aos sonhos que o alimentam. Outro dia, ele desenhou um mapa de uma “cidade” que abrigará os escolhidos em um vale do Centro-Oeste, com prédios lisérgicos, de formas tortas e de cores misturadas, alguns lúdicos como se fossem cogumelos. Fiquei horas com ele navegando sobre a loucura que será morar nessa comunidade sustentável sem as tecnologias que escravizam o homem. Tudo desenhando e pintado a mão. Não tenho certeza, mas é muito provável que “Azul” esteja esperando o fim do mundo previsto pelo calendário Maia para o próximo 21 de dezembro.

Orgulho-me de viver boas noites na companhia de “Azul”. Certa vez, fui de madrugada em seu apartamento-ateliê da Asa Sul, repleto de arte em todos os cantos. Ganhei de presente uma escultura de Safia. O casal bucólico, modelado pela grande artista de Pirenópolis, tinha uma pequena avaria. O homem estava sem face. Coloquei uma cabeça de boi-bumbá sobre ele e os dois pombinhos vivem a chamar a atenção de quem vem me visitar.

Numa noite de seca, acompanhei “Azul” e o neto pelos caminhos das quadras que levam aos bares de seu circuito lúdico e fiquei emocionado com a relação de carinho e respeito entre os dois. Vejo também de olhos sempre curiosos as mudanças de temas em seu quadros. Amo aquelas mulheres de pescoços retos que nem o Eixão, o homem com pinta de detetive noir e os elefantinhos coloridos. Recentemente, teve uma fase Pelourinho, fruto de sua primeira visita à Bahia. Ele ficou encantado com a presença da cultura negra na primeira capital do país. Impregnou-se, como artista, da força nagô que faz do Brasil um país incomum. Voltou falando oxente, esse homem que, para mim, é o mais livre de todos que circulam por esse sonho doido de cidade.

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