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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Todos contra o crack



Sérgio Maggio

Um homem desgarrado, maltrapilho, em pedaços, de olhos vidrados, bateu compulsivamente no vidro do meu carro num semáforo da Esplanada. Ele gritava por dinheiro naquele início de madrugada. Não tive medo, nem piedade. Apenas fiquei impotente, parado diante do sinal verde, talvez sem coragem de fugir da realidade. Quando retomei o movimento, olhei-o pelo retrovisor. Ziguezagueava pela amplidão daquela via, até desaparecer por completo no horizonte.
Naquela noite de asfalto chuvoso, que refletia as luzes da cidade, mantive a imagem daquele homem na cabeça. Sem pensar muito, fiz o primeiro retorno no Eixo Monumental e voltei a passar pela Esplanada quase vazia. O homem não estava mais lá. Tinha desaparecido. Quem sabe conseguido o dinheiro que tanto queria. Retomei o caminho quando observei, próximo a Rodoviária, dois adolescentes a chutarem um sujeito, muito parecido com aquele que bateu no vidro do meu carro. Acendi os faróis altos e buzinei na tentativa de assustá-los. Não funcionou. Os garotos ficaram mais excitados, diziam coisas que eu não conseguia ouvir e continuaram o ato de agressão, sem me dar muita bola, numa dessas cenas de selvageria urbana.
Mergulhei numa impotência sem fim. Os zumbis do crack parecem se impor aos nossos olhos como seres nascidos de um problema sem solução. A droga desafia governos em todo o mundo. Em São Paulo, assistimos atônitos a uma ação polêmica das autoridades, que dissipou os usuários da Cracolândia, nos arredores da Estação da Luz, para o resto da cidade, sem criar uma alternativa social de tratamento. Há até a possibilidade da internação compulsória, questionada por humanistas. Até agora, o resultado é uma população com mais medo e preconceito contra o usuário do crack, talvez o ser humano mais desvalorizado da nossa sociedade.
Em Brasília, não é diferente. A população de viciados vaga e o grande perigo, mas o grande perigo não está no sujeito que bate desesperado à janela dos carros. O maior risco está em banalizar essa cena. Fazer com que, esse exército condenado a não ter mais sonhos, incorpore-se como uma imagem errática da cidade. Acho que foi por isso que retornei naquela noite para a Esplanada . É contra esse risco que encontro o meu lugar nessa trincheira. Não deixar a minha indignação ser engolida pela impotência, pela inanição, pela inércia, pelos confortos da classe média à qual faço parte. Não posso acreditar que um ser humano em toda sua potência infinita de vida possa se reduzir a essa condição rastejante, que evoca uma “ratazana” atrás de restos.
Lembro que, nos anos 1990, quando a população de meninos de rua invadiu as cidades, houve uma espécie de alienação das pessoas diante do problema —- aquela imagem do vidro do carro se fechando e isolando o motorista da criança pedinte virou um clichê da época. Não podemos repetir essa atitude agora porque é por meio da indignação que nós, cidadãos, pressionaremos o governo a apresentar o resultado do projeto social contra o crack. Todos os candidatos que chegaram recentemente ao poder gastaram seus preciosos minutos de propaganda eleitoral apresentando suas plataformas contra a propagação da droga e o tratamento dos usuários. Agora, é hora de convidá-los a agir e a prestar contas. Em Brasília, não pode ser diferente.

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