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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Tempo feminino e plural


Foto/Divulgação/CPT

Sérgio Maggio
Um dia seguia pelo Cruzeiro Velho quando vi um casal e uma criança caminharem ao lado de um cachorro e uma cabra. Os dois animais estavam saltitantes entre as mangueiras que enchem a região de verde, sob os meus olhos admirados. Gostei de graça daquela adorável família. Havia um frescor neles em exibir a convivência possível entre as três espécimes ( ser humano, cabra e cachorro). Sempre que volto àquele lugar fico na expectativa de encontrá-los. Essa imagem de alguma forma evoca o meu mais íntimo desejo de vivermos em diversidade. Em tempo esquisito como este, a cena ganha um valor imensurável.
A diferença é íntima da natureza dos seres vivos. Cada vez mais, corro dos guetos, dos iguais, das bandeiras, de gente que comunga a mesma prece e segue obediente a orientações partidárias. Quero a mistura. Pôr no liquidificador verdades diversas. Não é fácil lidar com o contrário, com quem nos contradiz. Mas é uma arte de inquietante aprendizado. Lembro que, em tempos de juventude, jamais admitiria estar numa mesa com quem votasse em candidatos de partidos mais conservadores. Hoje, quando direita e esquerda no Brasil comungam a mesma base governista, vejo que, no mínimo, deixei de amar pessoas de crenças contrárias por pura intolerância.
Falando em fé, tenho visto assustado gente que se diz religiosa se engajar em lutas contra a vida. Um padre que fala em rádio nacional que os gatos são animais “traiçoeiros”, por exemplo, dissemina um comando para que seus fiéis maltratem e desprezem os bichanos. Um pastor que se coloca contra a aprovação da lei contra homofobia, que pune assassinos de seres humanos, espalha a ideia da morte como punição para aqueles não seguidores de seus mandamentos. Assim como não se pode aceitar a morte de cristãos na Nigéria simplesmente por seguirem a Bíblia, não podemos ser omissos com travestis que são dizimados em vias públicas simplesmente por vivenciar outra sexualidade.
Conheci outro dia uma mãe que diz ter os dois filhos mais adoráveis do mundo. Mas nenhum cumpriu uma expectativa que nutria quando eles eram pequeninos e dependentes. Ela queria que a menina fosse médica. Mas a garota decidiu ser atriz. Essa senhora sonhou que o temporão tomasse conta da fazenda do marido. Ele virou bailarino. A mãe é católica. As crias, uma é budista, a outra adepta do candomblé.Decididos, os filhos caíram cedo no mundo do trabalho. A genitora, sem fé, achou que estaria condenada a envelhecer só em Brasília. A profecia não se cumpriu. Hoje, vive rodeada de dengos e de reverências. Sabe que se cair, tem amparo. E, com extrema compreensão, aprendeu a amar as devidas opções. “A solidariedade não tem credos nem bandeiras”, ensina.
A frase me fez lembrar outra história. Na última temporada natalina, um jovem convocava, nas redes socais, o movimento gay a boicotar trabalhos sociais de instituições administradas por igrejas que discriminam a homossexualidade. A atitude é equivocada. Há igrejas seriíssimas que revertem volume de arrecadação em projetos sediados em presídios e comunidades dizimadas pelas drogas e violência, onde, infelizmente, o Estado se faz ausente. O caminho nunca é o do revide. Segregar é sempre divulgar o ódio, alimentar um mundo maniqueísta, de certos e errados. O tempo é feminino, de verdades plurais, como aquela mãe que acolhe a todos independentemente de suas crenças e escolhas.

Um comentário:

SheilaCampos disse...

Serginho,

Tenho convicção de que os deuses e as deusas o presentearam com o dom de escrever para que sua sensibilidade toque mais e mais corações bélicos (ainda tão equivocados), como faz com o meu.
Aprendo sempre com você, ao vivo ou lendo-o. E agradeço-lhe por isso!

Que o século XXI seja o tempo de os homens aprenderem a conviver em paz.